Esta resenha crítica apresenta uma análise detalhada da obra O Mundo de Sofia, escrita por Jostein Gaarder, publicada originalmente na Noruega em 1991 (no Brasil, a edição consultada não indica explicitamente o ano de impressão, mas a obra é mundialmente reconhecida por seu impacto pedagógico). Jostein Gaarder, ex-professor de filosofia, utiliza sua experiência didática para transformar a complexa história do pensamento ocidental em uma narrativa acessível, destinada tanto ao público jovem quanto ao leitor geral interessado em iniciar-se nos mistérios da existência.
A estrutura do livro organiza-se através de capítulos que funcionam como lições cronológicas de filosofia, entrelaçadas à vida da protagonista, Sofia Amundsen. A narrativa começa com perguntas enigmáticas e evolui para um “curso de filosofia” por correspondência, onde cada capítulo foca em um pensador ou período específico.
Capítulo I ao V: O Despertar e os Filósofos da Natureza
A obra introduz Sofia Amundsen, uma jovem de 14 anos que começa a receber cartas anônimas com perguntas como “quem és tu?” e “de onde vem o mundo?”. Este início estabelece o conflito central: a ruptura com a indiferença cotidiana. Gaarder utiliza a metáfora do coelho branco retirado de uma cartola mágica: enquanto a maioria das pessoas se acomoda no fundo dos pelos do coelho (o conforto da ignorância), o filósofo tenta subir até a ponta dos pelos para encarar o “ilusionista” nos olhos.
Nos capítulos iniciais, o autor apresenta os pré-socráticos, ou filósofos da natureza. Pensadores como Tales de Mileto (que via a água como origem de tudo), Anaxímenes (o ar) e Empédocles (os quatro elementos: terra, ar, fogo e água) são discutidos. O fio condutor aqui é a busca pelo elemento primordial e a transição do pensamento mítico para o racional. Demócrito encerra esta fase com a teoria atomista, comparando os átomos a peças de Lego — elementos indivisíveis e eternos que formam toda a realidade.
Capítulo VI ao IX: O Destino, Sócrates e Platão
Ao abordar o Destino, Gaarder explora como os gregos tentavam prever o futuro através de oráculos, como o de Delfos, e como a medicina de Hipócrates começou a buscar causas naturais para as doenças, afastando-se da superstição.
O surgimento de Sócrates marca uma mudança: o foco sai da natureza e vai para o homem e a sociedade. O autor destaca a ironia socrática e a maiêutica (a arte de dar à luz ideias). Sócrates afirmava que “a pessoa mais sábia é aquela que sabe que não sabe”, desafiando os sofistas que cobravam para ensinar verdades relativas.
Platão, discípulo de Sócrates, é introduzido através do Mundo das Ideias. Gaarder explica didaticamente que as coisas do mundo sensível são apenas cópias imperfeitas de moldes eternos e ideais. A famosa Alegoria da Caverna é usada para ilustrar como a alma humana anseia por retornar à luz do conhecimento verdadeiro após estar presa às sombras das aparências.
Capítulo X ao XV: Aristóteles à Idade Média
Aristóteles surge como o contraponto crítico a Platão. Enquanto Platão focava no mundo das ideias, Aristóteles, o primeiro biólogo da Europa, focava no mundo sensível e nas transformações da natureza. Ele fundou a Lógica e classificou a existência em uma escala que vai das coisas inanimadas ao ser humano racional.
A narrativa avança para o Helenismo e a Idade Média. Gaarder mostra como o pensamento grego foi cristianizado por pensadores como Santo Agostinho (influenciado por Platão) e São Tomás de Aquino (que harmonizou Aristóteles com a fé cristã). O autor ressalta que, na Idade Média, a filosofia era a “serva da teologia”, mas ainda assim manteve vivas as raízes da razão.
O Mistério de Hilde e a Metalinguagem
Um elemento fascinante que permeia os capítulos é a introdução de Hilde Möller Knag. Sofia começa a encontrar objetos pertencentes a Hilde, como um lenço de seda e cartões postais enviados por um Major do Líbano. Isso cria uma camada de metalinguagem: Sofia descobre, mais tarde, que ela e seu mundo são criações literárias de Albert Knag, o Major, como um presente de aniversário para sua filha, Hilde.
CONSIDERAÇÕES FINAIS: Entre a Razão e o Salto de Fé
Ao encerrar a jornada de Sofia Amundsen, fica evidente que a intenção central de Jostein Gaarder foi sistematizar a história do pensamento ocidental para provocar no leitor um despertar da consciência. A obra contribui de forma pedagógica para que compreendamos como o ser humano, ao longo dos séculos, tentou decifrar o enigma da existência através da lógica, da ciência e da metafísica. No entanto, ao analisarmos a obra sob a ótica da Teologia Reformada e da filosofia de Søren Kierkegaard, percebemos que a “estrada da razão” possui um horizonte limitado.
Enquanto Gaarder nos conduz pelos meandros do intelecto, a visão kierkegaardiana — frequentemente associada ao existencialismo cristão — nos lembra que o sentido da vida não é apenas um problema a ser resolvido pela mente, mas uma angústia a ser superada pelo espírito. Para Kierkegaard, o ser humano passa pelos estágios estético e ético, mas só encontra sua verdadeira identidade no estágio religioso. É aqui que entra o conceito fundamental do “Salto de Fé”: a percepção de que, diante do paradoxo de um Deus eterno que se relaciona com o homem temporal, a razão deve silenciar para que a fé fale.
Sob a perspectiva da Teologia Reformada, essa busca por sentido converge para a soberania de Deus e a revelação. O “sentido da vida” que Sofia procura nas cartas não está em uma autodescoberta autônoma, mas no reconhecimento de que o ser humano é um ser caído que só encontra seu propósito ao ser restaurado em sua relação com o Criador. Diferente do otimismo humanista que às vezes transparece na narrativa de Gaarder, a visão reformada e kierkegaardiana sustenta que o conhecimento de si mesmo é indissociável do conhecimento de Deus.
Portanto, a obra nos deixa um questionamento vital: embora a filosofia nos ensine a fazer as perguntas certas e a não “adormecer na pelagem do coelho”, ela não possui em si a resposta final para a angústia da alma. O sentido pleno, como proposto por Kierkegaard, exige que o indivíduo saia da posição de mero espectador da história (como Sofia inicialmente era) para se tornar um agente que, em um ato de coragem e entrega, dá o salto em direção ao Absoluto. A filosofia nos leva até a margem do abismo; a fé, porém, é o que nos permite atravessá-lo.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
GAARDER, Jostein. O Mundo de Sofia: romance da história da filosofia. Tradução de João Azenha Jr. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.
KIERKEGAARD, Søren. O Desespero Humano. Tradução de Adolfo Casais Monteiro. São Paulo: Abril Cultural, 1979. (Coleção Os Pensadores).
KIERKEGAARD, Søren. Temor e Tremor. Tradução de Maria José Marinho. São Paulo: Abril Cultural, 1979. (Coleção Os Pensadores).
CALVINO, João. As Institutas ou Instituição da Religião Cristã. Tradução de Waldyr Carvalho Luz. São Paulo: Cultura Cristã, 2006 (Referência base para a Teologia Reformada mencionada).











