A Identidade de Deus na Filosofia e Teologia

A busca por Deus não é um mero exercício dialético, mas o clamor de um “mistério existencial que apenas o Criador pode decifrar”. Como observadores inquietos dos abismos da alma, entendemos que a identidade divina é o ponto de ancoragem contra a “fumaça que se infiltra em cada aspecto” de nossa realidade caída. Esta jornada propõe desvendar quem é a Pessoa de Deus, navegando entre a razão filosófica e a contundente revelação bíblica.

Filo de Alexandria: O Logos como Arquétipo


Para Filo, Deus é o Ser Absoluto, Transcedente e Inefável. Sua identidade é tão elevada que a mente humana não pode contemplá-Lo diretamente sem um mediador. Surge aqui o conceito de Logos — a “Mente de Deus”. Para o filósofo judeu, o Logos é a imagem através da qual o universo foi ordenado, funcionando como um intermediário entre o Criador e a criação. No entanto, o Evangelho de João 1 subverte essa abstração. Enquanto o Logos de Filo é uma ideia ordenadora, o Verbo de João é a Pessoa de Deus que invade a história: “O Verbo se fez carne”. A identidade de Deus deixa de ser uma categoria metafísica para se tornar um “Tu” relacional, revelando que a divindade não é um silêncio distante, mas uma comunicação viva e salvífica.

Platão e Tomás de Aquino: A Identidade da Perfeição e do Ser


Platão: A identidade de Deus é fundida à ideia do Bem Supremo. Ele é o sol inteligível que permite que a alma contemple a verdade. Na “Alegoria da Caverna”, a identidade divina é a luz externa que os homens, acorrentados em seus desejos egoístas, temem enfrentar. Platão postula que a verdadeira luz não reside no homem, mas no céu.

Tomás de Aquino: Deus é o Actus Purus (Ato Puro). Sua identidade é o próprio ato de existir (Ipsum Esse Subsistens). Ele é a “Causa Primeira” que sustenta a realidade, impedindo o caos. Essa “identidade necessária” confronta nossa insuficiência: se Deus é o Ser Necessário, nós somos os seres contingentes que clamam por uma resolução que apenas Aquele que tudo conhece pode oferecer.

Teólogo Arthur W. Pink: A Soberania e os Atributos Inabaláveis
Na teologia de A.W. Pink, a identidade de Deus é revelada através de Seus Atributos Soberanos. Deus não é uma entidade vaga, mas o Senhor cuja vontade governa cada átomo segundo Seu propósito eterno. Pink enfatiza que Deus é caracterizado por Sua santidade inatingível e graça soberana. A identidade de Deus é a de um Rei cujos decretos não dependem do arbítrio humano. Para a tradição reformada, conhecer a Deus é reconhecer que Ele é imutável — nEle não há “sombra de variação”. Essa soberania absoluta é o único porto seguro para o pecador que reconhece sua incapacidade de salvar a si mesmo por méritos próprios.

Pascal, Kierkegaard e o Drama Existencial
Blaise Pascal: Deus é o Deus de Amor e Consolo, captado pelo “coração que sente”. Pascal encontrou na identidade de Cristo a resposta para a miséria humana. Deus é Aquele que se revela na “água viva” que sacia a sede da alma, transcendendo o simples entorpecimento oferecido pelas distrações mundanas.

Søren Kierkegaard: A identidade de Deus é marcada pelo Paradoxo e pela Alteridade. Ele é o “Absolutamente Diferente”, cuja Pessoa exige um “salto de fé” que transcende a razão. Deus atrai o indivíduo para fora do prazer imediato para confrontá-lo com Sua vontade absoluta. A redenção emerge dessa relação singular, pessoal e solitária com Deus.

Kant, Agostinho e a Busca pelo Destino
Immanuel Kant: Deus possui a identidade de Legislador Moral Supremo. Embora a razão não possa prová-Lo, a ética exige Deus como postulado para que o bem resulte em felicidade. Sua identidade é o alicerce da “verdadeira liberdade”, que reside na adesão a princípios universais em vez do desejo individual.

Santo Agostinho: Deus é o Amor que nos Precede. Sua identidade é o destino final: “Fizeste-nos para Ti, e nosso coração está inquieto enquanto não repousar em Ti”. Agostinho diferencia a “Cidade de Deus”, baseada no amor divino, da “Cidade dos Homens”, movida pelo egoísmo que leva ao vazio existencial.

Nietzsche e o “Deus Desconhecido”
Mesmo em Friedrich Nietzsche, a identidade divina retorna como um Reclamante Inevitável. Em sua “Oração ao Deus Desconhecido”, ele revela uma identidade de Deus que “invade a vida qual turbilhão”. Deus é o Incompreensível, a quem ele se sente “forçado a servir” mesmo querendo fugir. Essa identidade é o reconhecimento de uma finitude que clama pelo Desconhecido, refletindo o conflito entre o ego que quer ser deus e a alma que reconhece sua condição de criatura.

A Identidade de Deus na Teologia Contemporânea


R.C. Sproul
: A Identidade na Alteridade da Santidade. Para Sproul, a identidade de Deus é definida por Sua Santidade Absoluta. Ele argumenta que a essência divina é marcada por uma pureza que consome a pretensão humana. A identidade de Deus provoca fascínio e terror, sendo “três vezes santa”. Ignorar essa santidade é o grande erro moderno, pois é apenas diante da luz do caráter de Deus que o homem compreende sua própria “natureza herdada de Adão” e sua incapacidade de se autoperfeiçoar. Deus é o Juiz Justo cuja santidade expõe a total depravação humana, exigindo uma submissão que nasce do temor reverente.

Dietrich Bonhoeffer: A Identidade no Sofrimento e na Finitude. Bonhoeffer apresenta Deus como o Servo Sofredor. A identidade de Deus não deve ser buscada nas margens onde a razão falha, mas no centro da vida, revelada paradoxalmente na fraqueza da cruz. Deus se deixa expulsar do mundo para sofrer conosco. Sua identidade é o “ser para os outros”. Ele convoca o crente não a uma religiosidade escapista, mas a participar dos sofrimentos de Deus no mundo, oferecendo uma resposta que rompe com a alienação e foca na responsabilidade histórica.

Tim Keller: A Identidade no Amor Pródigo e na Graça. Keller articula a identidade de Deus como o Pai de Amor Extravagante. Ele resgata a identidade divina como Aquele que oferece graça gratuita, restaurando o sentido existencial através da união com Cristo. Deus é o Redentor que entra na complexidade humana para curar as patologias do narcisismo e do ressentimento. Sua identidade é a de um Rei que se torna servo para que o homem, escravizado por seus ídolos, encontre a verdadeira liberdade.

Renato Borges: Deus como o Decifrador do Mistério Existencial.

Em minha obra Além da Angústia, a identidade de Deus é apresentada não como um conceito estático de manual teológico, mas como a fonte inesgotável de vida e graça que se manifesta no âmago da agonia humana. Deus é Aquele que detém a chave para o “mistério existencial” que somos; uma identidade que só pode ser plenamente compreendida quando o homem, despido de suas pretensões de autossuficiência, reconhece-se como um ser essencialmente incompleto. Para Borges, Deus é a presença constante que orienta a existência em meio à “fumaça densa” de um mundo marcado pela queda e pelo ressentimento. Sua identidade é revelada na capacidade de conferir sentido à dor e ao sofrimento, transformando a angústia em solo fértil para uma jornada de busca sincera e redentora. Em última análise, Deus é a Verdade que liberta o sujeito de sua alienação, convidando-o a um repouso que transcende as barreiras da finitude e as ilusões do ego

Referências Bibliográficas


AGOSTINHO. A Cidade de Deus. 7. ed. Tradução de Oscar Paes Lemes. Rio de Janeiro: Editora Vozes, 2002.

ALEXANDRIA, Filo de. As Obras de Filo de Alexandria. Tradução de C. D. Yonge. Peabody: Hendrickson Publishers, 1993.

BONHOEFFER, Dietrich. Resistência e Submissão: Cartas e Anotações da Prisão. São Leopoldo: Sinodal, 2003.

BORGES, Renato Rodrigues. Além da Angústia: A Jornada Existencial na busca por Deus. 2. ed. Goiânia: Ed. do Autor, 2024.

KELLER, Timothy. O Deus Pródigo: Recuperando a Essência da Fé Cristã. Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2017.

PINK, Arthur W. Os Atributos de Deus. São Paulo: PES, 2003.

SPROUL, R. C. A Santidade de Deus. São Paulo: Cultura Cristã, 1997.

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