Em um esforço para manter a paz, evitar conflitos ou proteger o parceiro, muitos de nós adotamos um hábito comum: o silêncio. Guardamos frustrações, engolimos mágoas e suprimimos o que realmente sentimos.
Embora pareça uma estratégia de autopreservação no curto prazo, a neurociência revela que essa prática tem um custo biológico e emocional significativo, tanto para o indivíduo quanto para a saúde do relacionamento.
A supressão emocional não é um ato passivo; é um processo ativo e complexo que exige um esforço cerebral considerável. Entender o que acontece em nosso cérebro quando optamos por não expressar nossas emoções é o primeiro passo para construir conexões mais autênticas e saudáveis.
O Cérebro em Alerta: O Duelo Entre Razão e Emoção
Quando vivenciamos uma emoção, uma das primeiras estruturas cerebrais a reagir é a amígdala. Localizada no sistema límbico, ela funciona como o nosso “alarme” emocional, processando sentimentos como medo, raiva e prazer, e preparando o corpo para uma resposta.

Para suprimir essa emoção, outra área entra em cena com força total: o córtex pré-frontal (CPF), especialmente suas regiões ventrolateral e dorsolateral.
O CPF é o nosso centro executivo, responsável pelo planejamento, tomada de decisões e, crucialmente, pela regulação emocional. Segundo estudos liderados pelo psicólogo James Gross, um dos pioneiros na área, a supressão expressiva funciona como um freio que o córtex pré-frontal impõe sobre a amígdala.
Esse “freio”, no entanto, não desliga a emoção. A amígdala continua ativa, gerando a resposta fisiológica (aumento da frequência cardíaca, tensão muscular), mas o CPF impede que essa emoção seja expressada externamente. Esse cabo de guerra constante consome uma quantidade imensa de energia cognitiva.
Sobrecarga e o Prejuízo da Empatia
O esforço contínuo do córtex pré-frontal para conter a amígdala cria o que os cientistas chamam de “custo cognitivo”. Os recursos mentais que poderiam ser usados para outras tarefas – como ouvir atentamente, resolver problemas ou praticar a empatia – são desviados para a tarefa de supressão.
Isso explica por que, em momentos de contenção emocional, podemos nos sentir mais distraídos ou mentalmente exaustos. Mais preocupante, porém, é o impacto em áreas cerebrais ligadas à conexão social.
A ínsula e o córtex cingulado anterior, regiões fundamentais para a empatia e a percepção das emoções alheias, podem ter sua atividade diminuída. Ao nos fecharmos para nossas próprias emoções, nos tornamos menos capazes de perceber e responder às emoções do nosso parceiro, criando a “distância invisível” mencionada no post da rede social.
A Ponte Quebrada: O Impacto na Conexão do Casal
A analogia de uma ponte entre duas regiões cerebrais é poderosa. Cronicamente, a supressão emocional enfraquece as vias neurais que facilitam a comunicação emocional saudável. Para um relacionamento, isso é devastador.
A intimidade e a confiança são construídas sobre a vulnerabilidade e a co-regulação emocional – a capacidade do casal de se sintonizar e acalmar mutuamente. Quando um dos parceiros suprime suas emoções consistentemente, ele se torna emocionalmente ilegível para o outro.
O parceiro que observa pode interpretar esse silêncio como desinteresse, frieza ou rejeição, mesmo que a intenção original fosse proteger a relação. Pesquisas na área de psicologia social demonstram que indivíduos que interagem com alguém que está suprimindo emoções tendem a relatar menos afinidade e sentir a interação como mais forçada e menos autêntica.
Reconstruindo a Ponte: Da Supressão à Expressão Consciente
Reconhecer esse padrão é o primeiro passo para a mudança. As emoções que consistentemente suprimimos não simplesmente desaparecem; elas são banidas para o que o psicanalista Carl Jung chamou de “sombra”: o porão inconsciente da nossa personalidade onde residem nossos impulsos e sentimentos negados.
A solução, portanto, não é a expressão impulsiva e descontrolada — que muitas vezes é a própria sombra irrompendo sem controle —, mas sim a expressão emocional consciente. Este é um processo corajoso de iluminar essa sombra, acolhendo e dialogando com as emoções que foram reprimidas, para que possam ser integradas e expressas de forma construtiva, em vez de nos sabotarem silenciosamente (JUNG, 2011). Isso envolve:
- Identificar a Emoção: Fazer uma pausa para entender o que você está sentindo (raiva, tristeza, medo, decepção).
- Comunicar de Forma Construtiva: Utilizar uma comunicação não-violenta, expressando o sentimento sem culpar o outro. Frases como “Eu me sinto…” em vez de “Você me fez sentir…” são cruciais.
- Praticar a Vulnerabilidade: Entender que expressar uma emoção não é um sinal de fraqueza, mas um convite à conexão. É um ato de coragem que permite que o parceiro veja quem você realmente é.
Ao praticar a expressão consciente, não apenas aliviamos a sobrecarga do nosso cérebro, mas também fortalecemos os laços de intimidade, permitindo que a ponte da comunicação no relacionamento seja reconstruída, mais forte e resiliente do que antes.
Referências Bibliográficas
GROSS, J. J. Emotion regulation: Affective, cognitive, and social consequences. Psychophysiology, Cambridge, v. 39, n. 3, p. 281-291, maio 2002.
BUTLER, E. A. et al. The social consequences of expressive suppression. Emotion, Washington, D.C., v. 3, n. 1, p. 48-67, mar. 2003.
JUNG, C. G. Os arquétipos e o inconsciente coletivo. Petrópolis: Vozes, 2011.
RICHARDS, J. M.; GROSS, J. J. Emotion regulation and memory: the cognitive costs of keeping one’s cool. Journal of Personality and Social Psychology, Washington, D.C., v. 79, n. 3, p. 410-424, set. 2000.
OPHRIR, Y. The social effects of expressive suppression in close relationships. Journal of Social and Personal Relationships, Thousand Oaks, v. 29, n. 4, p. 435-452, jun. 2012.