O Grande Conflito à luz de Calvino e Louis Berkhof

Ellen G. White aproxima-se da Reforma ao defender a autoridade bíblica e denunciar a opressão religiosa, mas se distancia de Calvino e Louis Berkhof ao organizar a consumação da salvação em torno de 1844, do juízo investigativo e da observância do sábado como questão decisiva do conflito final.
O Grande Conflito, de Ellen G. White, apresenta a história cristã como parte de uma controvérsia entre Cristo e Satanás. Para isso, a narrativa percorre a destruição de Jerusalém, as perseguições, a Reforma Protestante, o movimento adventista e os acontecimentos que, segundo a autora, antecedem a restauração definitiva da criação. Nesse sentido, sua força está na maneira como reúne acontecimentos históricos e expectativas religiosas numa história de fidelidade, sofrimento e esperança. Contudo, seu ponto mais controverso é a autoridade atribuída às interpretações que sustentam essa ligação.
Antes de tudo, a comparação requer uma distinção histórica. Calvino não conheceu o adventismo do século XIX; suas posições serão utilizadas como critérios de avaliação, sem lhe atribuir uma refutação antecipada de White. Por sua vez, Berkhof oferece uma sistematização reformada posterior, particularmente útil para examinar a obra de Cristo, o juízo e o estado dos mortos.
Critérios de leitura e citações
Nota sobre as citações:
esta resenha abrange, de forma condensada, os 42 capítulos. As citações de White seguem o sistema autor-data, com o ano de 2013, identificado na edição eletrônica fornecida. Além disso, as páginas correspondem à contagem do arquivo PDF, incluindo as páginas iniciais, e não à paginação de outra edição impressa. Por sua vez, para Calvino, utilizam-se livro, capítulo e seção das Institutas. Do mesmo modo, para Berkhof, identificam-se as seções consultadas. Por fim, as traduções de citações consultadas em inglês estão assinaladas.
O Grande Conflito: perseguições e testemunho cristão
1. Predito o destino do mundo
Ao descrever o ministério de Jesus, White afirma: “Foi incansável em Seus esforços para salvar esta vinha que Ele próprio plantara” (WHITE, 2013, p. 19). Assim, a destruição de Jerusalém aparece sob o contraste entre a misericórdia oferecida e a resistência humana.
Assim, a narrativa comunica com vigor a gravidade da rejeição de Cristo. Entretanto, a dificuldade surge quando o episódio se torna modelo detalhado dos acontecimentos finais. A doutrina calviniana da providência permite reconhecer o governo divino na história; não concede ao intérprete conhecimento irrestrito das intenções de Deus em cada catástrofe. Por isso, é preciso distinguir o juízo anunciado pelo próprio Cristo das correspondências propostas pela autora (CALVINO, 1559, I.16).
2. O valor dos mártires
“Os seguidores de Cristo deveriam trilhar a mesma senda de humilhação, ignomínia e sofrimento que seu Mestre palmilhara” (WHITE, 2013, p. 36). Nesse sentido, White apresenta o martírio como testemunho de uma fidelidade que o poder político não consegue extinguir.
Esse capítulo de O Grande Conflito merece reconhecimento por devolver dignidade aos perseguidos. Entretanto, sofrer por uma convicção não demonstra, por si só, sua verdade. Na perspectiva reformada, a igreja é reconhecida pela Palavra e pelos sacramentos, e a coragem de seus membros deve ser julgada à luz desse fundamento. O sofrimento confirma a seriedade de um testemunho; não substitui seu exame doutrinário (CALVINO, 1559, IV.1).
3. Como começaram as trevas morais
White escreve: “Quase imperceptivelmente os costumes do paganismo tiveram ingresso na igreja cristã” (WHITE, 2013, p. 45). Desse modo, a formação do poder papal é descrita como resultado de concessões que teriam afastado a igreja da simplicidade apostólica.
Nesse aspecto, a crítica encontra afinidade com a oposição reformada à elevação de tradições humanas à condição de mandamentos divinos. Contudo, o capítulo tende a reunir processos distintos numa trajetória contínua de corrupção. Por isso, uma avaliação histórica precisa examinar separadamente doutrinas, práticas e instituições. Desse modo, a discordância com Roma pode ser fundamentada sem transformar toda a experiência cristã medieval numa realidade uniforme.
4. Um povo que difunde luz
“Em cada época houve testemunhas de Deus” (WHITE, 2013, p. 56). De fato, a frase expressa uma convicção compartilhada pela tradição reformada: Deus preserva sua igreja mesmo quando suas instituições atravessam períodos de grave desordem.
Entretanto, o problema está em associar essa continuidade à presença, nas comunidades do passado, dos elementos que posteriormente caracterizariam o adventismo. Por isso, a fidelidade de um grupo perseguido precisa ser demonstrada por seus próprios documentos. Em Calvino, a preservação da igreja não depende de comprovar uma sucessão de comunidades que antecipem todas as particularidades de uma denominação posterior.
O Grande Conflito: os precursores da Reforma
5. Arautos de uma era melhor
White afirma que “Deus não consentira que Sua Palavra fosse totalmente destruída” (WHITE, 2013, p. 72). Por isso, a recuperação do acesso às Escrituras fornece o eixo de sua apresentação dos precursores da Reforma.
É um dos temas mais próximos da sensibilidade reformada. Com efeito, o conhecimento bíblico permite confrontar autoridades religiosas e corrigir práticas recebidas. Ainda assim, a narrativa exige cuidado ao passar da valorização das traduções para afirmações gerais sobre a ausência da Bíblia na vida medieval. Circulação restrita, desconhecimento popular e inexistência do texto são situações diferentes, com consequências históricas distintas.
6. Dois heróis da Idade Média
“O Céu havia provido outros fatores para a preservação da igreja” (WHITE, 2013, p. 87). Nesse contexto, a trajetória de Huss e Jerônimo é apresentada como resistência à corrupção e defesa da verdade em circunstâncias extremas.
White transmite a dimensão humana do testemunho religioso: a consciência confrontada pela ameaça, a solidão e o custo da fidelidade. Nesse sentido, a leitura reformada acolhe esse testemunho, mas precisa resistir à tentação de converter os personagens em porta-vozes de um sistema posterior. Portanto, o valor de Huss não depende de sua identificação completa com Calvino, Berkhof ou o adventismo.
7. A influência de um bom lar
Sobre Lutero, White declara: “Lutero foi o homem para o seu tempo” (WHITE, 2013, p. 107). Esse capítulo de O Grande Conflito relaciona formação familiar, disciplina e experiência religiosa ao surgimento do reformador.
De fato, a abordagem é convincente quando mostra que grandes mudanças também amadurecem em experiências ordinárias. Contudo, sua limitação aparece no risco de fazer a biografia desembocar numa missão previamente definida pelo narrador. Para uma avaliação reformada, a importância de Lutero deve ser medida especialmente pelo conteúdo de sua redescoberta do evangelho. Assim, a formação doméstica ajuda a compreender sua trajetória; a justificação pela fé esclarece sua contribuição teológica.
8. O poder triunfante da verdade
“A atenção de todos os partidos dirigia-se agora para a assembléia dos Estados alemães” (WHITE, 2013, p. 129). Assim, a Dieta de Worms é narrada como confronto entre autoridade institucional e fidelidade à verdade.
Esse capítulo de O Grande Conflito oferece uma defesa expressiva da consciência religiosa. Essa defesa, porém, precisa conservar seu fundamento: a consciência cristã não se torna soberana simplesmente por resistir ao poder. Afinal, ela também pode errar. Por isso, a firmeza de uma convicção merece respeito, mas sua validade depende daquilo que a sustenta. A leitura reformada exige submeter tanto o governante quanto o indivíduo à avaliação das Escrituras.
9. A luz na Suíça
“É plano de Deus empregar humildes instrumentos para atingir grandes resultados” (WHITE, 2013, p. 151). De fato, na apresentação de Zuínglio, White destaca a iniciativa divina e a modéstia dos agentes humanos.
O reconhecimento da graça é pertinente. Entretanto, a origem social ou a simplicidade pessoal não constituem critérios suficientes de verdade teológica. Além disso, o relato aproxima os reformadores por sua oposição a Roma, deixando em segundo plano divergências importantes entre eles. Por isso, uma resenha reformada precisa considerar essas diferenças, sobretudo quando envolvem os sacramentos e a maneira de compreender a presença e a ação de Cristo na igreja.
O Grande Conflito: a expansão do protestantismo
10. A Europa desperta
“Seus escritos eram lidos com maior avidez […] do que nunca dantes” (WHITE, 2013, p. 163). Desse modo, a ausência de Lutero evidencia como sua influência já ultrapassara a atuação presencial.
White percebe a importância da circulação das ideias. Esse capítulo de O Grande Conflito permite considerar a Reforma como acontecimento também educativo e comunicacional. Contudo, sua interpretação perde precisão quando a divisão entre verdade e erro parece esgotar as causas dos acontecimentos. Interesses políticos, condições de impressão e redes de proteção não anulam uma leitura providencial; constituem parte da história concreta que essa leitura pretende compreender.
11. Os príncipes amparam a verdade
White caracteriza o protesto de Espira como “um dos mais nobres testemunhos já proferidos pela Reforma” (WHITE, 2013, p. 174). Por isso, o apoio dos príncipes representa uma proteção decisiva diante da repressão.
Entretanto, a avaliação precisa reconhecer a ambivalência dessa aliança. A autoridade civil pode resguardar uma comunidade e também restringir outras. Calvino atribui ao governo responsabilidades religiosas mais extensas do que aquelas admitidas pela concepção contemporânea de liberdade de consciência. Por isso, não seria historicamente correto apresentar sua posição e a de White como equivalentes nesse assunto. Portanto, a aproximação exige reconhecer diferenças reais (CALVINO, 1559, IV.20).
12. Os nobres da França
“O protestantismo parecia destinado a ser totalmente destruído” (WHITE, 2013, p. 187). Nesse contexto, a perseguição francesa recebe uma interpretação centrada na preservação da fé em meio à violência.
Esse capítulo de O Grande Conflito transmite a vulnerabilidade dos reformados e sua disposição de permanecer fiéis. Para uma comparação com Calvino, entretanto, é necessário ultrapassar a imagem do reformador como personagem de resistência. Além disso, sua contribuição inclui uma compreensão articulada de Deus, da graça, da igreja e da vida cristã. Entretanto, White valoriza o lugar histórico da Reforma, mas essa valorização não resolve as divergências doutrinárias que seu próprio livro posteriormente introduz.
13. A liberdade nos Países Baixos
“Nos Países Baixos a tirania papal já muito cedo suscitou resoluto protesto” (WHITE, 2013, p. 210). Assim, a resistência religiosa aparece vinculada à busca de liberdade.
O mérito do capítulo está em mostrar o custo da coerção sobre a vida das comunidades. Contudo, seu limite consiste em aproximar movimentos diferentes sob uma identidade comum de oposição. Discordar da autoridade romana não produz automaticamente unidade de doutrina. Por isso, uma comparação orientada por Berkhof deve perguntar o que cada comunidade ensina sobre a salvação, os sacramentos e a igreja, além de reconhecer sua resistência à perseguição.
14. Progressos na Inglaterra
“Tyndale deveria completar a obra de Wycliffe, dando a Bíblia a seus compatriotas” (WHITE, 2013, p. 217). Desse modo, White apresenta a tradução como serviço espiritual e transformação cultural.
O acesso à Escritura em língua compreensível é um dos pontos mais fecundos da narrativa. Assim, o leitor deixa de depender exclusivamente de quem afirma falar em nome do texto. Isso, porém, não elimina a necessidade de interpretação responsável. Afinal, a disponibilidade da Bíblia não garante que toda leitura seja correta. Nesse sentido, a própria controvérsia entre White e a tradição reformada mostra que o acordo sobre a autoridade bíblica pode coexistir com desacordos profundos sobre seu sentido.
O Grande Conflito: liberdade e interpretação da história
15. A Escritura Sagrada e a Revolução Francesa
“Consentiu-se que o mal chegasse a amadurecer” (WHITE, 2013, p. 235). Assim, a Revolução Francesa é interpretada como consequência da rejeição da verdade e do enfraquecimento das restrições religiosas.
A crítica à violência revolucionária é compreensível, mas o capítulo atribui a acontecimentos complexos uma explicação religiosa muito abrangente. Com efeito, a doutrina da providência não dispensa a investigação de causas econômicas, políticas e sociais. Também não autoriza identificar, sem demonstração suficiente, a intenção divina por trás de cada ruptura histórica. Assim, a interpretação pode ser coerente com o sistema de White e ainda assim permanecer historicamente insuficiente.
16. O mais sagrado direito do homem
Os reformadores ingleses, segundo White, “retiveram muitas de suas formas” religiosas anteriores (WHITE, 2013, p. 256). Nesse sentido, a liberdade de consciência aparece ligada à discussão sobre costumes e culto.
A questão é relevante: uma prática antiga não se torna legítima apenas por sua antiguidade. Entretanto, tampouco se torna ilegítima unicamente por sua associação histórica com Roma. Por isso, é necessário examinar seu conteúdo e sua função. Na comparação com Calvino, o capítulo também exige distinguir obediência a Deus, ordem eclesiástica e coerção civil. Portanto, essas relações não recebem a mesma solução nos dois autores.
17. A esperança que infunde alegria
“A doutrina do segundo advento é, verdadeiramente, a nota tônica das Sagradas Escrituras” (WHITE, 2013, p. 265). Por isso, a expectativa da volta de Cristo oferece consolo aos que sofrem e aguardam a restauração.
Aqui existe uma convergência cristã substancial. De fato, Calvino também orienta a esperança para a ressurreição e a manifestação de Cristo. Entretanto, a diferença decisiva surgirá quando essa esperança for associada a cálculos cronológicos. Por isso, a confiança na promessa é mais ampla do que uma interpretação específica de seus sinais. Esse capítulo de O Grande Conflito é mais convincente quando alimenta essa confiança do que quando prepara a legitimação de um calendário (CALVINO, 1559, III.25).
O Grande Conflito: profecia e movimento adventista
18. Uma profecia muito significativa
Guilherme Miller é apresentado como “especialmente escolhido por Deus para iniciar a proclamação da segunda vinda de Cristo” (WHITE, 2013, p. 281). Em seguida, seu percurso intelectual e religioso prepara a exposição dos cálculos proféticos.
A sinceridade de Miller merece tratamento respeitoso, mas não comprova a interpretação que adotou. Afinal, a aplicação de Daniel 8:14 a uma data moderna depende de decisões exegéticas que precisam ser demonstradas individualmente. Sob um critério reformado, a convicção pessoal e os resultados religiosos de uma mensagem não bastam para estabelecer sua origem divina. Portanto, o argumento deve permanecer sujeito à correção pelo texto bíblico.
19. Luz para os nossos dias
“Nenhum homem […] já chegou a compreender” inteiramente aquilo que Deus lhe permite conhecer, afirma White ao discutir os movimentos religiosos (WHITE, 2013, p. 304).
De fato, o reconhecimento da limitação humana é valioso. O problema é a maneira como ele pode ser utilizado: corrigir um entendimento é diferente de proteger sua premissa principal contra qualquer contestação. Por isso, se a interpretação produz uma expectativa fracassada, a revisão precisa alcançar também suas bases. A fidelidade à Escritura inclui a disposição de abandonar uma conclusão religiosa, mesmo quando ela tenha sustentado experiências intensas e sinceras.
20. Um grande movimento mundial
White identifica em Apocalipse 14 “um grande despertamento religioso sob a proclamação da breve vinda de Jesus” (WHITE, 2013, p. 314).
A amplitude geográfica do movimento reforça sua importância histórica. Não estabelece, contudo, que ele seja o cumprimento exclusivo da passagem. O argumento precisa demonstrar por que outras leituras devem ser descartadas. A crítica reformada também deve aplicar esse cuidado às próprias interpretações: reconhecer uma missão na história não concede a uma comunidade o direito de fazer de sua experiência a chave definitiva de uma profecia.
21. A causa da degradação atual
Miller e seus companheiros teriam trabalhado para “despertar os homens ao preparo para o juízo” (WHITE, 2013, p. 332). O capítulo contrapõe esse propósito à resistência encontrada nas igrejas.
O chamado ao arrependimento é coerente com a pregação cristã. A dificuldade está em aproximar a rejeição do cálculo adventista da rejeição da própria verdade divina. Uma comunidade pode discordar de Miller por considerar sua interpretação biblicamente equivocada. Para avaliar essa discordância, é necessário examinar seus argumentos. Transformá-la previamente em sinal de decadência impede o debate que a autoridade das Escrituras deveria tornar possível.
22. Profecias alentadoras
Após o desapontamento, os crentes “sentiam-se seguros de que Deus os guiara” (WHITE, 2013, p. 346). Mesmo assim, a narrativa preserva o valor espiritual da experiência apesar da expectativa frustrada.
Esse é um dos capítulos mais delicados do livro. Acolher pessoas decepcionadas é uma tarefa pastoral legítima; justificar a previsão requer outro tipo de demonstração. Uma experiência pode produzir arrependimento, solidariedade e oração, embora contenha um erro de interpretação. A análise precisa separar esses resultados. Do contrário, os frutos positivos passam a funcionar como confirmação de uma afirmação que os acontecimentos não realizaram.
O Grande Conflito: santuário, lei e justificação
23. O santuário celestial, centro de nossa esperança: O Grande Conflito
“Mas o tempo indicado passou e o Senhor não apareceu” (WHITE, 2013, p. 362). A partir desse reconhecimento, o santuário celestial permite reformular o significado de 1844.
A divergência com Berkhof deve ser formulada com precisão. Ele também afirma: “Cristo é […] um Sumo Sacerdote celestial” (Teologia sistemática, seção sobre a intercessão; tradução nossa). Portanto, o desacordo não é sobre a existência desse ministério. Incide sobre a data e a mudança de função propostas por White. Hebreus precisa fundamentar essa cronologia; a necessidade de explicar o desapontamento não pode fazer esse trabalho em seu lugar.
O templo no céu: realidade celestial e limites da comparação
White não descreve o santuário apenas como uma metáfora da vida espiritual. Ela afirma: “O santuário do Céu, no qual Jesus ministra em nosso favor, é o grande original” (WHITE, 2013, p. 366). Na página seguinte, distingue um primeiro compartimento e o lugar santíssimo, com a arca e a lei. Portanto, o livro sustenta uma realidade celestial correspondente ao tabernáculo terrestre, cuja divisão organiza sua interpretação do ministério de Cristo.
A objeção reformada não consiste em negar que Cristo esteja realmente no céu. Hebreus 8:1–5 e 9:24 fundamentam seu sacerdócio e sua presença diante do Pai. A dificuldade é transformar a correspondência tipológica numa descrição arquitetônica e cronológica que exigiria aguardar 1844 para uma nova etapa. Hebreus 9:12 e 10:19–22 relacionam a entrada e o acesso à presença divina à obra já realizada por Cristo. Berkhof reconhece o santuário celestial e a intercessão; o que sua exposição não exige é esse adiamento histórico (BERKHOF, seção “The Intercessory Work of Christ”).
Além disso, “erigido pelo Senhor” não autoriza especular sobre materiais, construtores ou uma data de construção. O ponto da linguagem de Hebreus é a superioridade da realidade celestial sobre a cópia terrena. A crença adventista 24 confirma a associação entre santuário e 1844; essa associação é precisamente o que precisa de demonstração exegética.
24. Quando começa o julgamento Divino
“O assunto do santuário foi a chave que desvendou o mistério do desapontamento de 1844” (WHITE, 2013, p. 374). Desse modo, a interpretação reorganiza o passado e oferece continuidade à esperança adventista.
Sua coerência interna é perceptível: o erro é situado na natureza do acontecimento esperado. Permanece, porém, a pergunta exegética sobre a validade da data. Na comparação reformada, a obra celestial de Cristo decorre de sua vitória e exaltação. Associar-lhe uma etapa iniciada em 1844 requer evidência específica, independente da utilidade dessa explicação para a história do movimento.
25. A imutável Lei de Deus
White relaciona 1844 à entrada de Cristo no lugar santíssimo para realizar a “obra finalizadora da expiação” (WHITE, 2013, p. 382). Assim, a narrativa aproxima santuário, lei e observância sabática.
A teologia reformada também reconhece a importância permanente da lei moral. A divergência está em como seus preceitos se cumprem em Cristo. Calvino distingue o descanso espiritual, a reunião para o culto e o alívio do trabalho, sem impor aos cristãos a observância do sétimo dia nos termos defendidos por White (CALVINO, 1559, II.8.28–34). Logo, a discordância não pode ser reduzida ao desprezo pela lei.
O sábado é uma marca dos eleitos?
No livro, o sábado ultrapassa a condição de prática de culto: torna-se sinal de fidelidade no conflito final. White afirma: “O selo da lei de Deus se encontra no quarto mandamento” (WHITE, 2013, p. 397). Nos capítulos finais, a obediência ao sábado é contraposta à submissão aos poderes que imporiam o domingo (WHITE, 2013, p. 532–533). Nesse sentido, ele funciona como distintivo escatológico dos fiéis. Entretanto, isso não equivale à eleição na compreensão calviniana.
Para a teologia reformada, a eleição procede da graça de Deus em Cristo, e o Espírito Santo sela os que creem (Efésios 1:4–5, 13–14). As boas obras manifestam a fé; não a substituem por uma identificação de calendário. Calvino interpreta o quarto mandamento pelo descanso em Deus, pelo culto e pelo cuidado com quem trabalha (CALVINO, 1559, II.8.28–34). A divergência decisiva está em fazer da observância do sétimo dia uma fronteira universal de lealdade no encerramento da história.
26. Restauração da verdade
“A obra da reforma do sábado […] acha-se predita na profecia de Isaías” (WHITE, 2013, p. 397). Por isso, a restauração da observância sabática assume lugar central na fidelidade final.
O capítulo precisa demonstrar a passagem entre a promessa de Isaías e sua aplicação denominacional. Citar o sábado no texto profético não resolve, isoladamente, a questão de sua observância na nova aliança. Calvino interpreta o mandamento a partir de seu cumprimento em Cristo. A controvérsia exige discutir essa interpretação, em vez de pressupor que toda leitura diferente representa resistência consciente à vontade divina.
O domingo já seria a marca da besta?
É necessário registrar a condição estabelecida pela própria autora: “Mas ninguém deverá sofrer a ira de Deus antes que a verdade se lhe tenha apresentado ao espírito e consciência, e haja sido rejeitada” (WHITE, 2013, p. 532). Assim, a narrativa não autoriza afirmar que todo cristão que hoje cultua no domingo já tenha recebido a marca da besta. Ela situa essa identificação numa crise futura de imposição religiosa e rejeição consciente daquilo que considera o mandamento divino.
Essa ressalva torna a descrição mais justa, mas não elimina a discordância reformada. Continua sendo necessário provar que Apocalipse identifica a marca com a observância dominical e o selo com a guarda sabática. Romanos 14:5–6 e Colossenses 2:16–17 precisam integrar a discussão. A crítica deve demonstrar essa dificuldade, sem reduzir a posição adventista à ideia de que alguém compraria a salvação guardando um dia.
27. A vida que satisfaz: como alcançar paz de alma
White afirma que os pecadores reconheciam que “nada, senão os méritos de Cristo, seria suficiente” para sua reconciliação (WHITE, 2013, p. 406).
É uma afirmação que permite diálogo real com a Reforma. Calvino define a justificação pela “remissão dos pecados e a imputação da justiça de Cristo” (CALVINO, 1559, III.11.2, tradução nossa). Entretanto, a questão crítica é conservar essa gratuidade ao tratar da santificação. Assim, a transformação da vida acompanha a fé; não fornece um complemento à justiça de Cristo. O capítulo deve ser lido à luz dessa distinção, sobretudo diante das exigências apresentadas posteriormente.
28. O grande juízo investigativo
“Os livros de registro no Céu […] devem determinar a decisão do juízo” (WHITE, 2013, p. 423). Nesse sentido, White descreve um exame celestial da vida dos que professaram servir a Deus.
Aqui se encontra uma divergência estrutural. Berkhof entende o juízo final como manifestação pública da justiça divina, sem tratá-lo como descoberta de algo desconhecido por Deus. White também não deve ser caricaturada como se atribuísse ignorância ao Criador. Portanto, a questão é a relação entre essa investigação, a situação do crente e a segurança da salvação. Na perspectiva reformada, as obras evidenciam a fé; a justiça de Cristo fundamenta a aceitação.
Juízo investigativo e certeza da salvação
O documento presbiteriano anexado também questiona o exame iniciado em 1844, descrevendo-o como análise dos registros dos que professaram fé, para confirmação da salvação (IGREJA PRESBITERIANA DO BRASIL, 2026, p. 1). A discordância alcança o fundamento da segurança cristã: o crente é acolhido em razão da justiça de Cristo ou aguarda uma investigação que determine seu acesso final aos benefícios da expiação?
Na leitura reformada, o juízo segundo as obras manifesta a verdade da vida humana e da fé professada; ele não acrescenta um fundamento à justificação. Hebreus 10:14 relaciona a oferta única de Cristo à perfeição daqueles que são santificados, e Romanos 8:1 afirma a ausência de condenação para os que estão nele. Berkhof compreende o juízo como manifestação pública da justiça e da graça divinas (BERKHOF, seção “The Final Judgment”). Por isso, a crítica incide sobre a estrutura dessa investigação e sua relação com a justificação, não sobre a existência de um juízo final.
O Grande Conflito: pecado e combate espiritual
29. Por que existe o sofrimento
“A origem do pecado e a razão de sua existência são causa de grande perplexidade” (WHITE, 2013, p. 433). Esse capítulo de O Grande Conflito procura defender a bondade de Deus diante da presença do mal.
White acerta ao reconhecer os limites da explicação humana. A comparação com Calvino, contudo, exige perguntar quanto dessa reserva permanece quando a narrativa descreve os motivos e o desenvolvimento da rebelião celestial. Por sua vez, a doutrina reformada mantém a responsabilidade da criatura sob a soberania divina. Nesta resenha, o conflito cósmico é avaliado como explicação teológica cuja legitimidade depende da revelação, inclusive quando oferece respostas emocionalmente satisfatórias.
Quem é o Diabo na narrativa de White?
Satanás é apresentado como Lúcifer, um ser celestial criado que se corrompe pelo orgulho e pela inveja. A autora o descreve como “o primeiro dos querubins cobridores” antes da queda (WHITE, 2013, p. 434). Ele não é um segundo deus, nem possui poder independente e equivalente ao de Cristo. Portanto, seria incorreto descrever o livro como um dualismo entre duas divindades de igual força.
A tradição reformada também confessa a realidade pessoal de Satanás e sua condição de criatura rebelde. A divergência aparece na extensão do relato e no uso de Isaías 14 e Ezequiel 28. Essas passagens se dirigem, em seu contexto imediato, aos reis da Babilônia e de Tiro. Uma aplicação à queda de Satanás precisa justificar a passagem do governante histórico ao drama celestial. O texto de White oferece uma narrativa pormenorizada; a crítica pergunta quais detalhes são demonstrados pela Escritura e quais dependem de sua autoridade interpretativa.
30. O pior inimigo do homem, e como vencê-lo
“Esta inimizade não é entretida naturalmente” (WHITE, 2013, p. 444). Portanto, White afirma que a oposição humana a Satanás depende de uma iniciativa de Deus.
A passagem apresenta uma proximidade importante com a compreensão reformada da incapacidade moral decorrente do pecado. Portanto, o ser humano necessita da graça para voltar-se ao bem. Entretanto, a comparação precisa avançar até a natureza dessa graça: como ela atua, por que produz fé e como sustenta a perseverança. Assim, a concordância inicial é significativa, mas não permite concluir que White adote, por isso, a doutrina calviniana da regeneração.
31. Invisíveis defensores do homem
White afirma que os anjos “não são os espíritos desencarnados dos homens falecidos” (WHITE, 2013, p. 450). Esse capítulo de O Grande Conflito distingue seres angelicais e seres humanos.
Essa distinção é compatível com a tradição reformada. Com efeito, seu valor está em impedir que a esperança cristã seja confundida com a transformação dos mortos em anjos. Entretanto, a reserva crítica diz respeito aos pormenores das atividades invisíveis. A afirmação bíblica de proteção não oferece conhecimento ilimitado sobre sua execução. Por isso, o consolo deve repousar no cuidado de Deus, sem depender da reconstrução de mecanismos espirituais que o texto não esclarece.
Quem é Jesus: Deus eterno ou um anjo?
O próprio livro impede que Jesus seja colocado na categoria dos anjos criados. White afirma que Cristo era “um com o eterno Pai — um na natureza, no caráter e no propósito” e atribui a ele a criação dos seres celestiais (WHITE, 2013, p. 434). A crença adventista atual sobre o Filho também confessa sua divindade eterna e sua verdadeira humanidade. Não há base, nessas fontes, para dizer que os adventistas atuais consideram Jesus uma criatura.
A identificação de Miguel com Cristo pertence a outra discussão. Na explicação adventista, “arcanjo” designa sua função de comandante dos anjos, sem lhe atribuir natureza criada (HÍGOR, 2025). Essa interpretação pode ser discutida à luz de Daniel 10:13, Judas 9 e Hebreus 1. Contudo, confundir um título funcional com a negação da divindade produziria uma acusação que a fonte rejeita expressamente.
Miguel e Calvino: uma concordância que precisa ser reconhecida
A comparação traz um dado que não pode ser omitido: ao comentar Daniel 12:1, Calvino admite a interpretação angelical, mas prefere relacionar Miguel à pessoa de Cristo (CALVINO, comentário de Daniel 12:1, preleção 65). Assim, a simples identificação não estabelece uma oposição entre ele e os adventistas. O desacordo mais consistente da resenha permanece na função sacerdotal atribuída a Cristo, no juízo investigativo e na segurança da salvação. A dignidade divina do Filho deve ser reconhecida onde as fontes a confessam.
32. Os ardis de Satanás
O objetivo do maligno seria “frustrar a obra de Cristo em prol do homem” (WHITE, 2013, p. 456). Esse capítulo de O Grande Conflito trata da distração, da incredulidade e dos enganos religiosos.
O chamado à vigilância possui valor pastoral. Entretanto, a linguagem de combate requer disciplina: atribuir uma objeção à ação satânica pode impedir seu exame. Por isso, a própria interpretação de White precisa permanecer sujeita à crítica. Calvino vincula o discernimento espiritual à Palavra e recusa que uma pretensa iluminação se torne autoridade independente dela. Portanto, esse critério alcança tanto os adversários da autora quanto suas próprias afirmações (CALVINO, 1559, I.9).
O Grande Conflito: morte e liberdade de consciência
33. É o homem imortal?
Sobre os ressuscitados, White escreve: “começam a pensar exatamente onde haviam parado” (WHITE, 2013, p. 484). Assim, a morte é apresentada como interrupção da consciência até a ressurreição.
Calvino sustenta a continuidade da existência da alma e seu repouso consciente, aguardando a consumação (CALVINO, 1559, III.25.6). Do mesmo modo, Berkhof também defende a presença do crente com Cristo no estado intermediário. Portanto, a divergência é inequívoca. Para enfrentá-la, é necessário comparar as passagens sobre o sono dos mortos com os textos sobre estar com Cristo, respeitando o gênero e o contexto de cada um. Assim, a simples ocorrência da palavra “sono” não encerra a discussão.
34. Oferece o espiritismo alguma esperança?
White afirma que a crença na consciência após a morte “abriu caminho para o moderno espiritismo” (WHITE, 2013, p. 485).
O argumento aproxima posições que precisam permanecer distintas. Afinal, crer que os mortos existem conscientemente não implica admitir sua comunicação com os vivos, nem autoriza buscá-la. Por sua vez, a tradição reformada sustenta a primeira afirmação e rejeita a necromancia. Assim, a crítica de White ao espiritismo não refuta, por si mesma, a doutrina reformada do estado intermediário. Por isso, a validade dessa doutrina depende da exegese dos textos que a sustentam, não de usos religiosos que seus defensores também condenam.
35. Ameaça à consciência
“Houve tempo em que os protestantes davam alto valor à liberdade de consciência” (WHITE, 2013, p. 495). Por isso, White teme que a aproximação com Roma conduza ao esquecimento das perseguições e das divergências.
Esse capítulo de O Grande Conflito recorda que a unidade religiosa pode ser buscada por meios coercitivos. Seu limite aparece quando a advertência assume uma continuidade institucional quase automática. Uma crítica reformada rigorosa deve identificar doutrinas e práticas específicas. Portanto, o diálogo não exige apagar diferenças; a preservação das diferenças tampouco dispensa justiça ao avaliar pessoas, instituições e mudanças históricas.
36. O maior perigo para o lar e a vida
White descreve o conflito como uma “batalha entre as leis dos homens e os preceitos de Jeová” (WHITE, 2013, p. 512).
A formulação preserva um princípio cristão: nenhuma autoridade humana é absoluta. Contudo, o desacordo entre interpretações bíblicas não equivale automaticamente ao confronto entre Deus e a rebelião. De fato, um cristão pode discordar de White sobre o sábado por convicção exegética. A resenha reformada deve exigir demonstração antes de atribuir a essa discordância um caráter de infidelidade. Portanto, obedecer às Escrituras e aceitar a leitura adventista não são expressões intercambiáveis.
O Grande Conflito: Escritura e acontecimentos finais
37. Nossa única salvaguarda
“Pelo testemunho destas toda declaração e todo prodígio deverão ser provados” (WHITE, 2013, p. 522). Assim, White apresenta as Escrituras como critério para avaliar ensinamentos e manifestações extraordinárias.
É um princípio que se aproxima diretamente de Calvino. Entretanto, sua aplicação precisa ser recíproca. Por isso, a autoridade atribuída à experiência religiosa da autora não pode dispensar a prova exigida aos demais. Esse capítulo de O Grande Conflito oferece, portanto, um critério que permite avaliar o próprio livro: cada interpretação decisiva deve poder ser sustentada pelo texto bíblico, sem depender previamente da aceitação da autoridade de quem a propõe.
Ellen White e a autoridade das Escrituras
O documento presbiteriano afirma que a IASD atribui a White inspiração superior à dos profetas bíblicos (IGREJA PRESBITERIANA DO BRASIL, 2026, p. 1). Essa afirmação deve ser apresentada como avaliação do documento, sem convertê-la automaticamente na autodefinição oficial adventista. A crença 18 reconhece autoridade profética em seus escritos, mas declara a Bíblia como norma para provar todo ensino e experiência (IGREJA ADVENTISTA DO SÉTIMO DIA, s.d., crença 18).
A discordância reformada pode ser formulada de maneira mais precisa: qual é a função efetiva de uma autoridade profética posterior ao cânon quando ela sustenta interpretações doutrinárias contestadas? O problema não se resolve apenas pela declaração de subordinação à Bíblia. É necessário verificar se a interpretação pode ser corrigida pelo texto ou se a autoridade da autora termina por decidir antecipadamente seu sentido. Esse é o teste que a própria resenha aplica ao santuário, ao sábado e ao juízo.
38. O último convite Divino
“A cada rejeição da verdade o espírito do povo se tornará mais entenebrecido” (WHITE, 2013, p. 531). Por isso, o convite para sair de Babilônia assume caráter urgente.
A advertência contra o endurecimento religioso merece atenção. A dificuldade está em definir quais instituições e doutrinas estão abrangidas por Babilônia. Ora, se essa identificação depende das premissas adventistas já discutidas, o chamado não pode ser apresentado como conclusão independente. A análise reformada deve perguntar se o texto exige essa aplicação e se os critérios utilizados permitem reconhecer também os pecados da própria comunidade que anuncia a advertência.
39. Aproxima-se o tempo de angústia
“Cessa então Jesus de interceder no santuário celestial” (WHITE, 2013, p. 539). Em seguida, a descrição introduz um período extremo, posterior ao encerramento das decisões para salvação.
Esse ponto apresenta forte tensão com Berkhof, para quem a intercessão sustenta a aplicação da obra de Cristo e a preservação dos crentes. Entretanto, a crítica precisa reconhecer que White não afirma simplesmente o abandono do povo por Deus. Mesmo assim, deve perguntar como a situação descrita se harmoniza com a dependência permanente do Salvador. Por isso, na perspectiva reformada, a perseverança repousa no cuidado eficaz de Cristo, inclusive na provação final.
40. O livramento dos justos
“É então, na hora de maior aperto, que o Deus de Israel intervirá” (WHITE, 2013, p. 558). O capítulo apresenta a libertação divina diante de uma ameaça de extermínio.
Sua força pastoral está na afirmação de que o sofrimento não terá a palavra final. Entretanto, a reserva reformada recai sobre o grau de detalhe atribuído à sequência futura. Afinal, a certeza da vitória de Cristo não depende de conhecer previamente cada movimento político ou cada forma de perseguição. A narrativa comunica esperança, mas sua precisão descritiva precisa ser avaliada pela suficiência das passagens que pretende interpretar.
Os 144 mil: todos os salvos ou um grupo da crise final?
White atribui aos 144 mil uma experiência singular: “Ninguém, a não ser os cento e quarenta e quatro mil, pode aprender aquele canto” (WHITE, 2013, p. 569). No contexto, são associados aos trasladados dentre os vivos e à passagem pelo tempo final de angústia. A página também descreve a família humana resgatada e reunida em adoração. Portanto, o livro não sustenta que somente 144 mil pessoas, em toda a história, receberão a salvação.
A discussão crítica deve concentrar-se na identificação desse grupo e na relação entre Apocalipse 7 e 14. Uma leitura reformada pode interpretar o número simbolicamente, como representação da plenitude do povo de Deus, embora não haja unanimidade entre intérpretes reformados. A descrição adventista de uma experiência final específica precisa ser demonstrada pelo texto, sobretudo ao vinculá-la à afirmação de que esses fiéis permaneceriam sem intercessor. O número, por si só, não fundamenta uma classe superior de redimidos nem estabelece um limite para os habitantes do céu.
41. Será desolada a Terra
“Agora todos fizeram sua decisão” (WHITE, 2013, p. 575). Por fim, a história chega ao encerramento de suas escolhas, preparando a exposição do período milenar.
Na estrutura do livro, a desolação da Terra possui um lugar definido entre os acontecimentos finais. Por outro lado, Berkhof oferece uma leitura amilenista que não adota essa sequência. A diferença depende da interpretação de Apocalipse 20 e de sua relação com outras passagens sobre a ressurreição e o juízo. Portanto, a tese de White precisa ser demonstrada nesse confronto textual; sua função dentro da narrativa não constitui prova suficiente de sua necessidade bíblica.
Satanás como bode emissário: a discordância sobre a expiação
Este é um dos pontos mais graves da comparação. White escreve que “o bode emissário tipificava Satanás” e que os pecados dos verdadeiros penitentes serão colocados sobre ele (WHITE, 2013, p. 373). Mais adiante, afirma: “serão então postos sobre Satanás os pecados do povo de Deus” (WHITE, 2013, p. 577). O documento presbiteriano interpreta essa associação como participação do Diabo na expiação (IGREJA PRESBITERIANA DO BRASIL, 2026, p. 1–2).
A formulação de White, entretanto, também atribui ao sangue de Cristo o mérito da remoção dos pecados e apresenta Satanás recebendo pena por sua responsabilidade. É preciso distinguir sua explicação da avaliação presbiteriana: a autora não descreve o Diabo como salvador voluntário ou portador de mérito redentor. Mesmo com essa distinção, permanece a objeção reformada à transferência dos pecados dos salvos para ele como etapa final do esquema tipológico.
Em Hebreus 9:26–28, a remoção e o carregar dos pecados são ligados à oferta de Cristo. Satanás responde por sua própria maldade; sua punição não completa o sacrifício do Salvador. Portanto, a interpretação de Levítico 16 precisa justificar tanto a identificação do bode com o Diabo quanto a necessidade dessa transferência. Na ótica reformada, a suficiência da obra de Cristo impede atribuir à condenação de Satanás qualquer função necessária para consumar a expiação dos remidos.
42. O final e glorioso triunfo
“O grande conflito terminou. Pecado e pecadores não mais existem” (WHITE, 2013, p. 595). Desse modo, o encerramento reúne julgamento, restauração e afirmação do amor divino.
Há convergência quanto à vitória definitiva de Deus e à renovação da criação. Entretanto, a divergência está no destino dos ímpios: a extinção final defendida por White não corresponde à punição eterna sustentada por Calvino e Berkhof. Por isso, a avaliação exige enfrentar os textos difíceis sem decidir previamente que uma das posições representa maior sensibilidade moral. Ambas fazem afirmações sobre a justiça divina e devem responder por sua interpretação das Escrituras (CALVINO, 1559, III.25.12; BERKHOF, seção “The Final State”).
Como é o céu dos adventistas?
O destino final apresentado por White não é uma existência de almas desencarnadas nem um céu reservado a 144 mil pessoas. A narrativa reúne ressurreição corporal, comunhão com Deus, vida social e restauração da Terra. Seu horizonte é a Nova Jerusalém e a criação renovada. A autora descreve os redimidos reconhecendo-se e desfrutando convivência com os fiéis de todos os tempos (WHITE, 2013, p. 592–593). Há, nesse ponto, afinidade com a esperança reformada da redenção corporal e da nova criação.
A divergência está na sequência: as crenças adventistas sobre o milênio situam os santos no céu durante mil anos, enquanto a Terra permanece desolada; depois, a Nova Terra torna-se seu lar definitivo. Berkhof não adota essa cronologia e rejeita a extinção final dos ímpios. Por isso, a crítica precisa distinguir a esperança compartilhada da restauração e os desacordos sobre milênio, ressurreições e punição final.
Por que há santuário antes e não há templo na cidade final?
No encerramento, White cita Apocalipse 21:22: “Nela não vi templo” (WHITE, 2013, p. 593). Trata-se de uma citação bíblica incorporada à sua exposição. Isso não estabelece, isoladamente, uma contradição formal com o santuário dos capítulos anteriores: os trechos se referem a momentos diferentes, e a própria passagem identifica Deus e o Cordeiro como templo da cidade. A questão crítica mais forte é por que o cumprimento definitivo em Cristo exigiria o detalhamento de compartimentos e a cronologia de 1844, e não a simples presença divina acessível por sua mediação.
A avaliação presbiteriana de 2026
O documento, intitulado Consulta sobre a Identidade Ortodoxa da Igreja Adventista do Sétimo Dia, corresponde ao protocolo CLXI, documento 120, da Comissão IX — Educação Teológica II, datado de 30 de julho de 2026. Seu texto também está disponível no repositório iCalvinus da Secretaria Executiva da IPB. A resolução classifica a IASD como seita e determina profissão pública de fé e batismo para receber pessoas oriundas dela (IGREJA PRESBITERIANA DO BRASIL, 2026, p. 2).
Trata-se de um juízo confessional e eclesiástico da IPB. Nesta resenha, ele documenta a posição presbiteriana e ajuda a delimitar as controvérsias; não dispensa a demonstração bíblica de cada discordância. A análise se concentra no juízo investigativo, no selo sabático, na autoridade profética atribuída a White, no estado dos mortos e no bode emissário. A classificação institucional não constitui, por si só, uma avaliação da sinceridade ou do destino eterno de cada fiel adventista.
O documento também deve ser confrontado com as fontes
Uma resenha crítica precisa distinguir três níveis: o que White escreve, o que a denominação atualmente declara e como a IPB avalia essas doutrinas. A afirmação do documento sobre uma inspiração superior de White precisa ser cotejada com a crença adventista 18, que formalmente subordina os ensinos à Bíblia. Do mesmo modo, a crença 13 reconhece cristãos verdadeiros na igreja universal, embora atribua ao remanescente uma missão específica. Isso exige maior precisão ao interpretar a acusação de exclusivismo.
Essas distinções não enfraquecem a crítica reformada. Elas permitem que a objeção alcance aquilo que a posição adventista efetivamente sustenta. É nesse terreno que a discussão sobre a suficiência de Cristo, a justificação e a autoridade das Escrituras se torna mais consistente.
O Grande Conflito: avaliação final
O Grande Conflito possui qualidades que uma resenha reformada precisa reconhecer. White escreve para formar convicções, despertar coragem e sustentar a esperança. Sua defesa do acesso à Bíblia, sua denúncia da perseguição e sua valorização da fidelidade religiosa conferem unidade e força à narrativa. O livro também registra o esforço de uma comunidade para compreender sua experiência, especialmente depois do desapontamento de 1844.
Entretanto, essa mesma unidade constitui sua principal dificuldade crítica. A história é organizada de maneira a conduzir o leitor à interpretação adventista de sua consumação. Assim, reformadores, mártires e movimentos anteriores tornam-se antecedentes de uma leitura cuja validade ainda precisa ser demonstrada. Por isso, a admiração por esses personagens pode favorecer a aceitação da conclusão, embora não estabeleça uma continuidade doutrinária entre eles e White.
Cristo e a segurança do crente em O Grande Conflito
Sob a ótica de Calvino e Berkhof, o ponto decisivo é a relação entre a suficiência de Cristo e a segurança do crente. Calvino define a justificação a partir do perdão e da justiça recebida em Cristo, distinguindo-a da renovação moral. Desse modo, essa distinção permite exigir uma vida santa sem transformar seu progresso no fundamento da aceitação divina (CALVINO, 1559, III.11).
Berkhof, por sua vez, impede uma crítica simplista ao adventismo: a teologia reformada também confessa o sacerdócio celestial de Cristo. Portanto, o desacordo precisa concentrar-se nas funções atribuídas a esse ministério, em sua cronologia e em suas consequências para a compreensão da salvação (BERKHOF, seção “The Intercessory Work of Christ”).
Meu veredito é que o livro merece leitura como obra religiosa de grande capacidade narrativa, mas suas interpretações centrais não podem ser tomadas como prolongamento necessário da Reforma. Assim, a defesa comum das Escrituras abre o diálogo; o exame da justificação, da mediação de Cristo e da escatologia revela os limites dessa aproximação. Por isso, uma crítica consistente deve demonstrar esses limites com a mesma honestidade com que reconhece os méritos da autora.
Referências
WHITE, Ellen G. O Grande Conflito. Edição eletrônica. Ellen G. White Estate, 2013. PDF fornecido para esta análise. O ano corresponde à edição eletrônica identificada no arquivo; as páginas citadas seguem a contagem do PDF.
Fontes de Calvino e Berkhof
CALVINO, João. Institutes of the Christian Religion. Texto de 1559. Tradução inglesa de Henry Beveridge. Versão eletrônica: Christian Classics Ethereal Library. As remissões no texto utilizam o ano do texto de referência e as divisões internas da obra, sem atribuição de páginas a uma edição portuguesa. Passagens consultadas:
- I.9 — Espírito e Escritura.
- I.16 — Providência.
- II.8 — Exposição da lei moral.
- III.11 — Justificação pela fé.
- III.25 — Ressurreição final.
- IV.1 — Igreja.
- IV.20 — Governo civil.
BERKHOF, Louis. Systematic Theology. Versões eletrônicas consultadas na Christian Classics Ethereal Library e na UECF. As referências identificam as seções, sem atribuir data ou paginação não conferidas da edição digital. Passagens consultadas:
Documentos e fontes complementares
IGREJA PRESBITERIANA DO BRASIL. Supremo Concílio. Consulta sobre a Identidade Ortodoxa da Igreja Adventista do Sétimo Dia. Comissão IX — Educação Teológica II. Protocolo CLXI, documento 120. Manaus, 30 jul. 2026. 3 p. Arquivo consultado: presbiteriano.pdf. Disponível em: iCalvinus — Secretaria Executiva da IPB. Acesso em: 20 out. 2026.
CALVINO, João. Commentary on Daniel. v. 2. Comentário a Daniel 12:1, preleções 64–65. Versão eletrônica: Christian Classics Ethereal Library, [s.d.]. Disponível em: Daniel 12:1. Acesso em: 20 out. 2026.
HÍGOR, Lucas. O arcanjo Miguel é Jesus Cristo? Notícias Adventistas, 4 abr. 2025. Disponível em: Notícias Adventistas. Acesso em: 20 out. 2026.
IGREJA ADVENTISTA DO SÉTIMO DIA. Crenças fundamentais. Divisão Sul-Americana, [s.d.]. Consultadas: 4. O Filho; 13. O Remanescente e sua Missão; 18. O Dom de Profecia; 24. O Ministério de Cristo no Santuário Celestial; 27. O Milênio e o Fim do Pecado; 28. A Nova Terra. Acesso em: 20 out. 2026.
Para outras leituras de filosofia e religião, consulte os artigos do Professor Renato.










