CAPITAL, TRABALHO E EMPREENDEDORISMO EM EUGEN VON BÖHM-BAWERK:
CAPITAL, JUROS E A CRÍTICA À ECONOMIA MARXISTA
RESUMO
Este artigo analisa o pensamento econômico de Eugen von Böhm-Bawerk no que se refere ao valor, ao capital, aos juros e à temporalidade da produção, reconstruindo sua crítica à teoria marxiana do valor e da mais-valia. Busca-se distinguir a crítica metodológica de suas implicações político-ideológicas e situar a controvérsia no desenvolvimento posterior do problema da transformação dos valores em preços de produção. O estudo também examina a possibilidade de aplicação das categorias böhm-bawerkianas à análise de investimentos, formação de capital e pequenos negócios, distinguindo juros, lucro empresarial e remuneração do trabalho do proprietário. Metodologicamente, adota-se pesquisa bibliográfica, qualitativa e teórico-comparativa, com prioridade para fontes primárias, seguida de dissertações, teses e artigos especializados. O estado da arte indica que a controvérsia não se encerrou na objeção de Böhm-Bawerk: Hilferding, Bortkiewicz e diferentes reconstruções posteriores deslocaram o debate da simples tese de contradição para problemas de transformação, redundância, forma-valor e interpretações monetárias e temporais. Conclui-se que Marx e Böhm-Bawerk operam com concepções distintas de valor, capital, tempo e excedente e que a existência de lucro, isoladamente, não demonstra nem exploração nem sua ausência. A análise econômica requer a identificação prévia dos mecanismos causais e das relações sociais responsáveis pela formação e apropriação do excedente.
Palavras-chave: Böhm-Bawerk. Capital. Juros. Karl Marx. Mais-valia. Teoria do valor. Empreendedorismo.
1 INTRODUÇÃO
A explicação da origem, formação e distribuição do excedente constitui um dos problemas clássicos da teoria econômica. Entre as respostas historicamente relevantes encontram-se, de um lado, a teoria marxiana do valor e da mais-valia e, de outro, as teorias subjetivas do valor, do capital e dos juros desenvolvidas pela tradição marginalista e, particularmente, pela Escola Austríaca de Economia.
Eugen von Böhm-Bawerk ocupa posição singular nesse debate. Capital and Interest sistematizou criticamente diferentes teorias do juro, enquanto The Positive Theory of Capital desenvolveu sua explicação positiva do capital, da produção temporal e do juro (BÖHM-BAWERK, 1890; 1891). Além disso, sua crítica ao sistema econômico de Marx tornou-se uma das intervenções mais influentes na controvérsia sobre a relação entre valor, mais-valia, taxa média de lucro e preços de produção (BÖHM-BAWERK, 1898).
O confronto, entretanto, não deve ser reduzido a uma oposição simples entre capitalismo e socialismo. A controvérsia envolve problemas metodológicos, epistemológicos e econômicos. Marx e Böhm-Bawerk partem de concepções distintas acerca do valor e procuram explicar fenômenos econômicos mediante categorias que não possuem equivalência direta.

Nesse sentido, o problema de pesquisa que orienta este estudo pode ser formulado nos seguintes termos: em que medida a teoria do capital e dos juros de Böhm-Bawerk constitui uma alternativa à explicação marxiana da mais-valia e quais são os limites dessa crítica quando consideradas as respostas históricas e as reconstruções posteriores?
A investigação também examina as possibilidades de aplicação dessas categorias à análise contemporânea dos investimentos e dos pequenos negócios. Tal aplicação exige cautela, pois juros, lucro empresarial, remuneração do trabalho do proprietário e mais-valia pertencem a estruturas conceituais diferentes e não devem ser tratados automaticamente como categorias equivalentes.
Metodologicamente, o trabalho adota pesquisa bibliográfica, qualitativa e teórico-comparativa. A hierarquia documental privilegia as obras primárias de Böhm-Bawerk e Marx; em seguida, teses e dissertações diretamente relacionadas ao problema; e, posteriormente, artigos científicos e literatura especializada. A auditoria bibliográfica adotou como regra que citações diretas somente fossem mantidas quando a paginação da edição utilizada pudesse ser documentalmente conferida.
2 BÖHM-BAWERK: VALOR, CAPITAL, TEMPO E JUROS
Böhm-Bawerk desenvolveu sua teoria econômica no contexto de consolidação da Escola Austríaca. Sua concepção de valor afasta-se das explicações que procuram uma substância objetiva responsável, por si mesma, pelo valor econômico dos bens. O valor é relacionado à avaliação subjetiva e à utilidade marginal.
Sua contribuição, contudo, não se limita à teoria do valor. A dimensão temporal ocupa posição central em sua teoria do capital. Os processos produtivos não acontecem instantaneamente: recursos disponíveis no presente são empregados em processos cujo produto somente estará disponível posteriormente.
O próprio Böhm-Bawerk formula o princípio central de sua teoria intertemporal de maneira inequívoca: “Present goods are, as a rule, worth more than future goods of like kind and number” (BÖHM-BAWERK, 1891, p. 159). Logo em seguida, qualifica essa proposição como o núcleo de sua teoria dos juros (BÖHM-BAWERK, 1891, p. 159).
A estrutura temporal permite compreender a importância da poupança e da formação de capital, mas poupança e capital produtivo não devem ser tratados como sinônimos. Recursos poupados tornam-se relevantes para a produção quando podem sustentar processos produtivos que demandam tempo, bens intermediários e antecipação de recursos.
Na formulação böhm-bawerkiana, métodos produtivos mais indiretos podem, sob determinadas condições, elevar a produtividade. A adoção desses métodos, entretanto, exige que recursos sejam comprometidos no presente enquanto se aguarda a maturação do processo produtivo (BÖHM-BAWERK, 1891).
A relação entre bens presentes e futuros torna-se, assim, fundamental para sua explicação do juro. Em Capital and Interest, Böhm-Bawerk reconstrói e critica diferentes teorias históricas do juro, incluindo as chamadas teorias da exploração (BÖHM-BAWERK, 1890).
Essa tese não autoriza concluir que a mera passagem do tempo produza automaticamente valor ou lucro. Investimentos podem fracassar, previsões empresariais podem ser incorretas e processos produtivos podem gerar prejuízos. A distinção entre juro e lucro empresarial é, portanto, necessária. A literatura de história do pensamento econômico sustenta que Böhm-Bawerk desenvolveu elementos de uma teoria do lucro empresarial distinta da teoria do juro, articulada à futuridade, às expectativas e à incerteza (MCCAFFREY; SALERNO, 2014).
3 MARX: VALOR, FORÇA DE TRABALHO, MAIS-VALIA E LUCRO
A análise econômica de Marx inicia-se pela mercadoria como forma elementar da riqueza nas sociedades em que predomina o modo de produção capitalista. Sua investigação distingue valor de uso, valor e valor de troca e procura explicar as relações sociais que tornam possível a produção generalizada de mercadorias (MARX, 2013).
A teoria marxiana não deve ser reduzida à proposição de que determinada quantidade individual de horas de trabalho determina imediatamente o preço de uma mercadoria. Marx define: “Tempo de trabalho socialmente necessário é aquele requerido para produzir um valor de uso qualquer” (MARX, 2013, p. 117). A formulação completa associa essa determinação às condições socialmente normais de produção, destreza e intensidade médias.
A categoria da força de trabalho é decisiva para a explicação marxiana da mais-valia, ou mais-valor, na tradução de Rubens Enderle. O trabalhador vende sua força de trabalho, e não diretamente o produto integral de seu trabalho. O valor dessa força de trabalho relaciona-se aos meios necessários à sua reprodução (MARX, 2013, p. 245-246).
A utilização da força de trabalho no processo produtivo pode gerar valor superior ao necessário à sua reprodução. Essa diferença constitui a base da explicação marxiana do mais-valor. A partir dela, Marx desenvolve posteriormente a análise das formas pelas quais o excedente aparece e é distribuído no processo global do capital.
É necessário, por isso, distinguir mais-valia e lucro. No Livro III, Marx examina a transformação do mais-valor em lucro, a formação de uma taxa geral de lucro e os preços de produção. Na exposição numérica do capítulo sobre a taxa geral de lucro, capitais de diferentes composições apresentam preços de produção que podem divergir de seus valores individuais (MARX, 2017, p. 189-193).
Uma linha interpretativa importante, associada a Isaak Rubin, enfatiza a dimensão social da teoria marxiana do valor. Nessa leitura, o valor não constitui apenas uma quantidade de trabalho incorporado, mas uma forma social assumida pelo trabalho em uma economia mercantil (RUBIN, 1972). Essa interpretação é relevante porque parte das respostas posteriores a Böhm-Bawerk sustenta que sua crítica não apreende suficientemente essa dimensão social.
4 A CONTROVÉRSIA ENTRE MARX E BÖHM-BAWERK
A crítica de Böhm-Bawerk concentra-se especialmente na relação entre a teoria do valor apresentada por Marx e a análise posterior dos preços de produção. Para o economista austríaco, existiria uma incompatibilidade entre proposições centrais do Livro I e os desenvolvimentos do Livro III de O Capital (BÖHM-BAWERK, 1898).
O problema pode ser formulado da seguinte maneira: se o trabalho constitui o fundamento do valor, como explicar que os preços de produção se afastem dos valores individuais das mercadorias e que capitais com diferentes composições apresentem tendência à formação de uma taxa média de lucro?
A objeção de Böhm-Bawerk é explícita. Ao concluir um de seus argumentos contra a solução marxiana, afirma: “This is to evade the admission of the contradiction; it is not to escape from the contradiction itself” (BÖHM-BAWERK, 1949, p. 63). A edição de 1949, organizada por Paul M. Sweezy, foi adotada aqui para essa citação porque sua paginação foi conferida documentalmente.
A crítica possui, portanto, dimensão metodológica. Não se trata apenas de rejeitar politicamente o socialismo, mas de perguntar se as conclusões desenvolvidas no Livro III permanecem compatíveis com os fundamentos expostos anteriormente.
Hilferding respondeu a Böhm-Bawerk enfatizando o caráter social das categorias marxianas. Sua defesa sustenta que a teoria do valor não deve ser reduzida a um mecanismo destinado a prever diretamente o preço individual de cada mercadoria. Para Hilferding, a lei do valor deve ser compreendida como uma lei de movimento de uma determinada organização social; desse modo, a divergência entre os autores alcança o próprio significado da categoria valor e o método de investigação econômica (HILFERDING, 1949).
Bortkiewicz seguiu outro caminho. Em vez de rejeitar simplesmente o problema, procurou reconstruir formalmente a transformação dos valores em preços de produção. Seus trabalhos publicados entre 1906 e 1907 tornaram-se um marco na história do chamado problema da transformação e deslocaram a controvérsia para uma discussão matemática e sistêmica sobre valores, preços, insumos e produtos (BORTKIEWICZ, 1906; 1907a; 1907b).
Consequentemente, não existe apenas “a crítica” a Marx nem apenas “a resposta” marxista a Böhm-Bawerk. Há programas interpretativos diferentes, com pressupostos metodológicos próprios.
5 CRÍTICA METODOLÓGICA E CRÍTICA IDEOLÓGICA
A distinção entre crítica metodológica e crítica ideológica é necessária para evitar que a controvérsia seja transformada em mera disputa político-partidária.
No plano metodológico, a questão principal diz respeito à coerência e à capacidade explicativa das teorias. Pergunta-se se as categorias de Marx explicam consistentemente a relação entre valor, preços de produção, lucro e distribuição do excedente. Da mesma maneira, deve-se perguntar se a teoria de Böhm-Bawerk explica satisfatoriamente a formação dos juros e qual é o alcance de sua teoria do capital.
Uma teoria pode ser examinada quanto à coerência interna, aos pressupostos, ao método e às consequências sem que o pesquisador precise aceitar previamente as conclusões políticas associadas ao autor. Essa separação é particularmente importante no estudo de Marx e da Escola Austríaca, tradições frequentemente mobilizadas em debates ideológicos contemporâneos.
A dimensão ideológica aparece quando conclusões econômicas são convertidas em avaliações normativas acerca da propriedade, exploração, distribuição, mercado, capitalismo ou socialismo. O pesquisador precisa distinguir a descrição e explicação de mecanismos econômicos da defesa normativa de determinada ordem social.
Assim, demonstrar uma inconsistência teórica em Marx não equivale automaticamente a demonstrar a superioridade moral ou política do capitalismo. De modo inverso, demonstrar desigualdades, assimetrias de poder ou concentração econômica não constitui, isoladamente, prova suficiente de toda a arquitetura da teoria marxiana do valor e da mais-valia.
A crítica acadêmica exige reconstruir os mecanismos causais propostos por cada teoria e submetê-los à análise antes de derivar conclusões normativas.
6 “CONTRADIÇÃO”, À PLURALIDADE DE RECONSTRUÇÕES
A auditoria bibliográfica indica que o estado da arte deve ser apresentado como uma sucessão de problemas e reconstruções, e não como uma linha simples que termina na refutação de uma das tradições.
Uma primeira fase concentrou-se na alegada contradição entre os Livros I e III de O Capital, sendo Böhm-Bawerk seu representante mais influente. Uma segunda fase tratou o problema como transformação formal dos valores em preços de produção, com destaque para Bortkiewicz. Em seguida, o debate passou a incluir questões relativas à redundância da teoria do valor-trabalho, às interpretações simultaneístas e temporais, à forma-valor e às reconstruções monetárias.
Lopes sintetiza a permanência da controvérsia ao observar que “A não existência de uma solução aceita de forma unânime […] assegura a complexidade do problema” (LOPES, 2012, p. 315). O autor propõe interpretar historicamente as diferentes fases como desenvolvimentos que reformulam o próprio objeto da controvérsia, em vez de tratá-la como mera repetição de um impasse.
Outra família de interpretações desloca a discussão para o caráter qualitativo e social do valor. Rubin (1972) sustenta que as categorias econômicas de Marx expressam relações sociais de produção e que a teoria do fetichismo não é um apêndice, mas componente estrutural da teoria do valor. Nessa leitura, reduzir a teoria marxiana a uma teoria de preços relativos obscurece parte de seu objeto.
No estado da arte brasileiro recente, Eymard (2026) retoma diretamente o confronto entre o subjetivismo de Böhm-Bawerk e a teoria da forma-valor reconstruída a partir de Rubin. Sua dissertação sustenta que a crítica austríaca falha ao não apreender a dimensão social da forma-valor e mobiliza, adicionalmente, tradições como a Neue Marx-Lektüre e a interpretação macro-monetária. Trata-se de contribuição particularmente relevante pela proximidade temática com o presente artigo, mas sua conclusão deve ser registrada como posição teórica defendida pelo autor, não como consenso estabelecido.
O debate contemporâneo inclui também interpretações que procuram defender a consistência temporal do sistema marxiano, em oposição a leituras simultaneístas. Essa família de abordagens é importante para o estado da arte porque questiona pressupostos utilizados em parte das formulações clássicas do problema da transformação. Para o escopo deste artigo, contudo, ela é registrada como linha de investigação e não desenvolvida matematicamente.
A tradição austríaca também passou por desenvolvimentos internos. A teoria do capital foi reformulada em torno da heterogeneidade dos bens de capital, da estrutura produtiva e da coordenação intertemporal. Além disso, a historiografia recente recuperou elementos empresariais na obra de Böhm-Bawerk. McCaffrey e Salerno (2014, p. 435-454) argumentam que sua teoria do lucro empresarial é distinta da teoria do juro e envolve futuridade, expectativas, julgamento e incerteza.
Essa conclusão corrige uma simplificação recorrente: não é adequado apresentar Böhm-Bawerk como se todo rendimento empresarial fosse explicado pela espera. O juro e o lucro empresarial precisam ser analiticamente separados.
O estado da arte, portanto, permanece plural. “Teoria marxista do valor” não designa uma interpretação única, assim como “teoria austríaca do capital” não corresponde integralmente a todas as formulações de Böhm-Bawerk. Uma comparação academicamente adequada precisa indicar qual versão de cada tradição está sendo analisada.
7 CAPITAL, JUROS, LUCRO E FUNÇÃO EMPRESARIAL
Um dos cuidados conceituais fundamentais consiste em não tratar mais-valia, juros e lucro empresarial como categorias equivalentes.
Na construção de Böhm-Bawerk, o juro está relacionado à diferença temporal entre bens presentes e futuros e à estrutura temporal do capital. O lucro empresarial, contudo, não se reduz a essa diferença. Decisões empresariais são orientadas por expectativas sobre condições futuras que não podem ser conhecidas com certeza.
McCaffrey e Salerno (2014) demonstram, a partir de uma reconstrução da obra böhm-bawerkiana, que as decisões de compra e alocação de fatores possuem caráter especulativo porque a produção demanda tempo. O empresário pode obter lucro quando antecipa adequadamente condições futuras, mas pode também sofrer prejuízo.
Essa constatação impede que a passagem do tempo seja utilizada como explicação suficiente para qualquer rendimento econômico. Esperar não garante lucro, e possuir capital não elimina a possibilidade de perda.
Também impede o movimento inverso de classificar automaticamente todo excedente apropriado pelo proprietário de uma empresa como manifestação imediata de uma única categoria econômica. Em um pequeno negócio, a renda do proprietário pode reunir remuneração de seu próprio trabalho, retorno do capital empregado e resultado empresarial.
Do ponto de vista marxiano, a questão é formulada de outra maneira. O interesse recai sobre a relação social entre capital e trabalho assalariado, sobre a produção do mais-valor e sobre as formas pelas quais o excedente aparece e é distribuído no movimento global do capital (MARX, 2013; 2017).
Portanto, o “lucro” observado contabilmente não corresponde automaticamente ao “juro” böhm-bawerkiano nem à “mais-valia” marxiana. Cada categoria pertence a uma teoria específica e precisa ser reconstruída dentro dela antes da comparação.
8 INVESTIMENTOS, FORMAÇÃO DE CAPITAL E PEQUENOS NEGÓCIOS
A aplicação da teoria do capital aos pequenos negócios permite visualizar concretamente a importância da temporalidade.
Um pequeno empresário que adquire equipamentos, contrata trabalhadores, compra insumos, desenvolve tecnologia ou investe em divulgação compromete recursos no presente na expectativa de receitas futuras. Entre o investimento inicial e a venda do produto existe uma estrutura temporal.
Sob uma perspectiva inspirada em Böhm-Bawerk, essa estrutura permite compreender por que recursos imediatamente disponíveis possuem importância específica para o processo produtivo. O investimento altera a combinação temporal de consumo, poupança e produção e envolve a expectativa de resultados posteriores.
Entretanto, o pequeno empresário não deve ser representado como simples proprietário passivo de capital. Em numerosos pequenos negócios, o proprietário também executa trabalho produtivo, administra, vende, negocia, organiza processos e assume responsabilidade pelas decisões.
Seu rendimento pode, portanto, reunir componentes economicamente distintos. Uma análise rigorosa deve distinguir, sempre que possível, remuneração do trabalho do proprietário, retorno associado ao capital investido, custos financeiros e resultado empresarial.
A incerteza também é central. A aquisição de uma máquina, a abertura de uma unidade ou o lançamento de um produto são decisões presentes baseadas em expectativas sobre demanda, custos e condições futuras. O resultado pode ser positivo ou negativo. Essa dimensão torna inadequada a ideia de que o lucro seja simples recompensa automática pela espera (MCCAFFREY; SALERNO, 2014).
A perspectiva marxiana acrescenta outro nível de análise. Pequenos negócios não existem isoladamente. Podem integrar cadeias produtivas dominadas por empresas maiores, depender de crédito, contratar força de trabalho, enfrentar assimetrias de negociação e participar de mercados concentrados. A análise marxiana chama atenção para as relações sociais de produção e para a distribuição do excedente no interior dessas estruturas (MARX, 2013; 2017).
As duas tradições, portanto, iluminam dimensões diferentes do fenômeno. A abordagem böhm-bawerkiana enfatiza temporalidade, capital, avaliação intertemporal e decisão empresarial. A abordagem marxiana enfatiza relações sociais de produção, força de trabalho, mais-valia e distribuição do excedente.
Reconhecer que elas focalizam dimensões diferentes não significa afirmar que sejam compatíveis. Existem divergências fundamentais entre suas teorias do valor. Significa apenas que uma comparação teoricamente adequada deve identificar precisamente o objeto e o mecanismo explicativo de cada construção.
9 SÍNTESE CRÍTICA
A reconstrução da controvérsia permite sustentar que Marx e Böhm-Bawerk não respondem sempre às mesmas perguntas, embora existam pontos de incompatibilidade teórica efetiva.
Böhm-Bawerk oferece instrumentos relevantes para compreender a temporalidade da produção, a formação do capital e a relação entre recursos presentes e resultados futuros. Sua crítica também levanta uma questão historicamente decisiva acerca da relação entre a teoria marxiana do valor e a formação dos preços de produção.
Marx, por sua vez, procura explicar relações sociais específicas do modo de produção capitalista e a maneira pela qual o excedente se relaciona com a organização social do trabalho. Interpretações da forma-valor insistem que essa dimensão social é indispensável para compreender o alcance de sua teoria (RUBIN, 1972; EYMARD, 2026).
O erro metodológico ocorreria se uma perspectiva fosse utilizada para eliminar antecipadamente as perguntas formuladas pela outra. A existência de temporalidade na produção não demonstra, por si só, que relações de exploração sejam impossíveis. De modo inverso, a existência de lucro, excedente ou desigualdade não demonstra automaticamente que todo rendimento do capital tenha uma única origem causal.
A contribuição analítica defendida neste artigo consiste, portanto, em exigir a identificação do mecanismo antes de sua classificação. Antes de denominar determinado rendimento como juro, lucro, mais-valia ou exploração, é necessário estabelecer qual processo econômico e social efetivamente o produziu.
Esse princípio possui particular relevância para pequenos negócios, nos quais trabalho do proprietário, capital investido, endividamento, risco, administração, contratação de trabalho e resultado empresarial frequentemente aparecem combinados.
Essa síntese não pretende dissolver a incompatibilidade entre as teorias do valor de Marx e Böhm-Bawerk. Pretende estabelecer um procedimento comparativo mais rigoroso: reconstruir cada categoria em seu sistema teórico, identificar o fenômeno que ela procura explicar e somente então avaliar a força das críticas recíprocas.
10 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Este artigo reconstruiu o pensamento econômico de Eugen von Böhm-Bawerk acerca do valor, do capital, dos juros e da temporalidade, relacionando-o à crítica dirigida à teoria econômica de Karl Marx.
A análise mostrou que a controvérsia não pode ser adequadamente compreendida como simples oposição ideológica entre capitalismo e socialismo. Existem problemas metodológicos substantivos relacionados às diferentes concepções de valor, capital, trabalho, preços e excedente.
A crítica de Böhm-Bawerk à relação entre a teoria marxiana do valor e os preços de produção constitui um dos capítulos historicamente mais relevantes dessa controvérsia. Entretanto, a resposta de Hilferding, a reconstrução de Bortkiewicz e as interpretações posteriores demonstram que o problema não foi encerrado pela objeção austríaca (HILFERDING, 1949; BORTKIEWICZ, 1906; 1907a; 1907b; LOPES, 2012).
A revisão do estado da arte permitiu ainda corrigir uma simplificação importante: o pensamento de Böhm-Bawerk sobre o rendimento empresarial não deve ser reduzido à teoria do juro. A recuperação de sua abordagem do empreendedorismo mostra a presença de elementos relacionados à futuridade, expectativas, incerteza, lucro e prejuízo (MCCAFFREY; SALERNO, 2014).
Do lado marxiano, as interpretações associadas à forma-valor contestam leituras que reduzem o valor a uma simples quantidade técnica de trabalho incorporado. Rubin (1972) e, recentemente no Brasil, Eymard (2026) enfatizam a dimensão social da forma-valor. Essa linha oferece uma resposta importante a Böhm-Bawerk, embora não represente consenso definitivo sobre o problema da transformação.
Na aplicação aos investimentos e pequenos negócios, a teoria do capital de Böhm-Bawerk oferece instrumentos para compreender antecipação de recursos, temporalidade dos processos produtivos e relação entre presente e futuro. A análise empresarial, porém, exige acrescentar expectativas e incerteza.
Ao mesmo tempo, a análise de pequenos negócios deve considerar relações de trabalho, crédito, concorrência e inserção em cadeias produtivas. A contribuição marxiana permanece relevante ao deslocar a atenção do agente isolado para as relações sociais e estruturas econômicas em que a produção ocorre.
À luz da literatura examinada, a existência de lucro não demonstra, isoladamente, exploração nem sua ausência. A tarefa teoricamente relevante consiste em identificar os mecanismos causais e as relações sociais responsáveis pela formação e apropriação do excedente antes de classificá-lo.
A comparação entre Marx e Böhm-Bawerk permanece intelectualmente relevante não porque permita proclamar de maneira simples a vitória definitiva de uma tradição sobre a outra, mas porque evidencia pressupostos distintos acerca do valor, do capital, do tempo e da própria natureza da explicação econômica.
Pesquisas posteriores poderão aprofundar essa comparação mediante análise empírica de pequenos negócios, investigando a composição dos rendimentos do proprietário, a estrutura temporal dos investimentos, a participação do trabalho assalariado, o custo do crédito, a formação do lucro e a inserção das pequenas empresas em cadeias produtivas mais amplas.
REFERÊNCIAS
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