A mente Esquerdista: as causas psicológicas da loucura política – Resenha

Capa de A mente esquerdista, de Lyle H. Rossiter, publicada pela Vide Editorial

A mente esquerdista: contexto e proposta

Por que a liberdade, tão desejada em nossos discursos, às vezes nos assusta quando chega o momento de assumir suas consequências? Afinal, escolher também significa correr riscos, suportar frustrações e reconhecer que ninguém pode viver nossa vida por nós.

É nessa inquietação que podemos começar a compreender A mente esquerdista. Assim, Rossiter procura mostrar como a maneira de lidar com a própria existência se encontra com a maneira de pensar a sociedade. Para ele, nossas expectativas políticas carregam algo da história afetiva que construímos desde a infância.

A apresentação do livro informa que Rossiter estudou medicina e psiquiatria na Universidade de Chicago, serviu por dois anos como psiquiatra no Exército norte-americano e trabalhou por mais de quarenta anos nas áreas clínica e forense. Também registra sua participação como consultor em mais de 2.700 casos civis e criminais. Podemos perceber como essa experiência orienta seu olhar: ele se interessa pelo que acontece quando desejos, conflitos e dificuldades pessoais encontram as regras que organizam a convivência. Nesse sentido, a experiência profissional ajuda a entender sua perspectiva; a validade de suas conclusões políticas precisa ser examinada ao longo do argumento.

O prefácio foi escrito em fevereiro de 2006. Rossiter olha para as transformações ocorridas nos Estados Unidos durante o século XX e o começo do XXI, especialmente a expansão do governo, as políticas de assistência e as mudanças nos vínculos familiares. Por sua vez, seu ponto de referência é a tradição constitucional americana, na qual identifica as condições de uma liberdade protegida por leis. Por isso, o contexto importa: o livro fala a partir de uma história concreta. Portanto, seus exemplos não podem ser transportados para qualquer país ou para o presente sem que essa distância seja considerada.

A tradução e o público da obra

A tradução também pede atenção. O termo liberalismo moderno, empregado no original para designar a esquerda norte-americana, foi traduzido como esquerdismo por ter outro significado no Brasil (ROSSITER, 2016, p. 46). Antes de tomar o título como descrição de toda a esquerda brasileira, precisamos compreender essa escolha. Desse modo, uma palavra pode aproximar o leitor do texto e, ao mesmo tempo, ampliar seu alcance para além do contexto em que foi escrita.

A mente esquerdista parece destinada a quem deseja pensar política, formação humana e educação familiar. Além disso, ela conversa especialmente com leitores próximos do conservadorismo moral e do liberalismo clássico. Seu tom combina explicação e enfrentamento: Rossiter quer ensinar, mas também convencer. Essa intenção, assumida no prefácio, acompanha a leitura inteira.

Capa de A mente esquerdista, de Lyle H. Rossiter, publicada pela Vide Editorial
Capa da edição brasileira de 2016, publicada pela Vide Editorial.

Como A mente esquerdista organiza seu argumento

A obra reúne apresentação biográfica, informações editoriais, sumário, dedicatória, agradecimentos, prefácio, três partes, bibliografia, colofão e textos de capa. Assim, o argumento se desenvolve em 48 capítulos, com prefácios próprios nas partes II e III.

Na primeira parte, capítulos 1 a 11, Rossiter apresenta sua compreensão da natureza humana e discute liberdade, competência, dependência, altruísmo e regras de convivência. Na segunda, capítulos 12 a 40, acompanha a formação da pessoa desde a infância até a vida adulta, relacionando esse percurso à família e às instituições. A terceira, capítulos 41 a 48, aplica essas ideias à interpretação do esquerdismo, distingue suas formas benigna e radical e encerra o livro com reflexões sobre integridade e tratamento.

Podemos acompanhar uma sequência clara: o autor descreve o adulto que considera capaz de viver em liberdade, investiga como ele se forma e, então, pergunta quais instituições apoiam ou interrompem esse crescimento. No entanto, algumas ideias retornam muitas vezes. Isso ajuda a compreendê-las, embora também torne a leitura repetitiva. Uma afirmação ganha presença quando é repetida; sua demonstração, porém, continua dependendo das razões que a sustentam.

Liberdade e reciprocidade em A mente esquerdista

Somos pessoas capazes de agir por conta própria, mas nossa vida acontece entre outras pessoas. Precisamos escolher, trabalhar, criar e decidir; precisamos também confiar, cooperar, amar e reconhecer limites. Rossiter chama essa condição de natureza bipolar do ser humano. Aqui, bipolaridade designa esses dois polos da existência, sem relação com o transtorno do humor. Por isso, sua ideia é que liberdade e convivência precisam caminhar juntas. O indivíduo não se realiza plenamente quando abandona a própria vontade, nem quando trata os outros como instrumentos dela.

Nesse ponto, A mente esquerdista merece uma leitura cuidadosa. De fato, seu individualismo inclui reciprocidade, empatia e altruísmo. O adulto competente é aquele que consegue enfrentar as tarefas comuns da vida, regular seus impulsos e colaborar sem perder a responsabilidade por si. Ou seja, não precisa ser rico, brilhante ou invulnerável. Rossiter reconhece que alguém pode alcançar sucesso profissional e ainda explorar outras pessoas. Reconhece também que um transtorno mental não elimina necessariamente a capacidade de viver com autonomia. Portanto, competência e saúde, em seu argumento, não se deixam medir apenas pelas aparências.

Da infância à formação da autonomia

Mas como essa capacidade se forma? De fato, a resposta ocupa grande parte da obra. Com apoio em Erik Erikson, Rossiter acompanha as experiências de confiança e desconfiança, autonomia e vergonha, iniciativa e culpa, atividade e inferioridade. Depois vêm identidade, intimidade, cuidado com as gerações seguintes e integração da própria história. Em outras palavras, são tensões que atravessam o crescimento. O autor admite diferentes graus e combinações entre elas; uma pessoa não se encontra inteiramente de um lado ou de outro.

A criança que encontra cuidado suficientemente confiável começa a acreditar que pode se relacionar com o mundo. Ao crescer, aprende a escolher, a iniciar algo, a persistir e a suportar que nem tudo aconteça conforme seus desejos. Na adolescência, essas experiências se reorganizam na pergunta sobre quem ela é e o que pode fazer da própria vida. Mais tarde, a intimidade e a geratividade ampliam suas responsabilidades: cuidar de alguém, criar filhos ou contribuir para a comunidade. A liberdade vai adquirindo, assim, uma história. Por isso, ela precisa de condições para amadurecer.

A família ocupa o centro desse percurso porque nela se experimentam, pela primeira vez, cuidado, autoridade, promessa, frustração e reparação. Rossiter valoriza o afeto acompanhado de limites e critica tanto o abandono permissivo quanto o controle excessivo. Também reconhece que professores, parentes e outros adultos podem ajudar a superar dificuldades anteriores. Portanto, isso impede considerar a infância uma sentença definitiva. Seu modelo inclui temperamento herdado, experiências posteriores e influências culturais, econômicas e históricas, embora atribua grande peso às relações dos primeiros anos.

Cuidado, limites e reparação

Um exemplo simples torna essa discussão mais próxima. Por exemplo, uma criança toma o brinquedo de outra e o quebra. Para Rossiter, a tarefa educativa vai além de repreendê-la: é preciso ajudá-la a reconhecer o que fez, compreender a dor que causou, pedir desculpas e reparar o prejuízo. Assim, podemos perceber o alcance dessa pequena cena. Aprender a viver com os outros inclui aprender a reconstruir a confiança quando nossas ações a ferem. A responsabilidade começa a ganhar sentido na experiência, muito antes de se tornar uma ideia política.

Ao passar da família para a sociedade, A mente esquerdista pergunta quais regras permitem que essa convivência continue. Por exemplo, a situação imaginada de Crusoé e Sexta-Feira ajuda a explicar o problema. Enquanto alguém vive sozinho, muitas escolhas dependem apenas de sua vontade. Quando outra pessoa chega, é necessário reconhecer sua presença, seus interesses e seus direitos. Rossiter utiliza essas figuras como recurso de explicação, sem desenvolver uma narrativa ficcional própria. Em outras palavras, a questão é compreender por que a liberdade precisa de acordos e de proteção contra a violência, o roubo e a fraude.

Direitos e governo em A mente esquerdista

Nos capítulos sobre a sociedade competente, essa reflexão se torna mais detalhada. O autor defende direitos sobre a própria pessoa, primeira posse, propriedade e troca, autodefesa, compensação por desapropriação, restituição e acesso limitado à propriedade alheia em emergências. Nesse sentido, a última possibilidade mostra que sua defesa da propriedade admite qualificações. Se alguém precisa de abrigo para sobreviver a uma tempestade, o uso exclusivo pode ceder temporariamente à proteção da vida. Portanto, há limites e situações difíceis dentro da própria concepção de liberdade que Rossiter apresenta.

O mesmo cuidado vale para sua posição sobre o governo. Por exemplo, ele admite tribunais, polícia, defesa nacional, registros de propriedade, medidas contra monopólios e funções públicas ligadas à água, às rodovias e à proteção ambiental. Também reconhece mecanismos de financiamento e tributação. Ainda assim, sua defesa de um governo limitado se afasta expressamente do anarcocapitalismo associado a Rothbard e do Estado mínimo do libertarianismo radical (ROSSITER, 2016, p. 360–362). Portanto, o Estado tem tarefas a cumprir; a preocupação do autor é que seu poder não cresça até absorver a vida dos cidadãos.

Em A mente esquerdista, a justificativa dessas regras combina argumentos morais, consequências práticas e experiência histórica. Rossiter também utiliza o imperativo hipotético: dadas certas características humanas, se queremos viver em paz e liberdade, precisamos respeitar determinadas condições. O raciocínio depende, portanto, do que foi assumido como verdadeiro e da relação entre essas condições e o resultado desejado. O próprio autor admite que sua tese geral ainda não está estabelecida no debate intelectual, embora a considere verdadeira (ROSSITER, 2016, p. 370). Assim, essa admissão deixa aberta uma tarefa para o leitor: examinar o caminho percorrido até a conclusão.

Quando a ajuda se torna tutela?

É na discussão da assistência que o argumento se torna mais controverso. Nesse ponto, Rossiter teme que a proteção oferecida pelo Estado transforme adultos em pessoas permanentemente tuteladas. O Estado parental moderno representa essa expectativa: uma instituição política é chamada a oferecer a segurança que antes se esperava dos pais. Segundo o autor, benefícios desligados de esforço, responsabilidade e reciprocidade podem enfraquecer a iniciativa e deslocar o cuidado familiar e comunitário. A pergunta que emerge é importante: quando ajudamos alguém, estamos ampliando sua capacidade de viver ou assumindo indefinidamente o lugar de sua vontade?

Essa pergunta, contudo, pede atenção às circunstâncias. De fato, a própria obra reconhece vulnerabilidades e funções públicas necessárias. Por isso, a relação entre ajuda e dependência precisa ser investigada em seus efeitos, e não apenas afirmada de antemão. É possível que uma proteção substitua a iniciativa; é preciso examinar também quando ela oferece condições para que a iniciativa exista. Nesse sentido, as categorias de autonomia e reciprocidade, tão importantes para Rossiter, permitem formular essa questão a partir do próprio livro.

Direitos, necessidades e responsabilidade

A discussão dos direitos aprofunda o conflito. Direitos negativos protegem a pessoa de interferências; direitos afirmativos reivindicam a provisão de bens e serviços. Por sua vez, Rossiter considera que o financiamento compulsório dessas provisões viola a liberdade de quem paga por elas. Ele distingue, ainda, sofrimento de injustiça: uma perda causada por desastre ou acidente pode ser terrível sem resultar da violação de um direito por outra pessoa. A necessidade desperta compaixão, mas, em sua perspectiva, não cria por si só uma obrigação jurídica ilimitada sobre terceiros. Por isso, sua aceitação de tributação para outras finalidades públicas torna especialmente importante explicar onde essa obrigação começa e termina.

Na terceira parte de do texto, Rossiter diferencia o esquerdismo benigno do radical. O primeiro nasce de compaixão e de uma confiança excessiva na capacidade do governo de cuidar. O segundo é apresentado como uma busca de controle que encontra alimento em conflitos e feridas anteriores. Ainda assim, há posições intermediárias entre esses perfis. Assim, o autor reconhece boas intenções em parte dos que critica, embora rejeite os meios políticos que defendem. Portanto, a interpretação psicológica mais intensa se dirige à radicalização.

Conflitos psicológicos e disputas políticas

Transferência, projeção e negação são conceitos centrais nessa leitura. Transferir é, nesse contexto, carregar para relações presentes algo dos conflitos vividos no passado. Projetar é atribuir aos outros o que custa reconhecer em si. Negar é afastar uma realidade dolorosa. Rossiter entende que essas defesas podem organizar uma visão de mundo rigidamente dividida entre vítimas, vilões e heróis. A política se tornaria o lugar onde antigas dores procuram reparação, e o Estado assumiria o papel do cuidador capaz de compensá-las. Assim, essa é a hipótese que o autor desenvolve, e é também onde sua argumentação exige maior exame.

O capítulo 47 leva a discussão a temas como igualdade, educação, pluralismo, ambientalismo, aborto e feminismo. No entanto, há ressalvas que não devem desaparecer na síntese. Rossiter aprova a proteção ambiental como objetivo e reconhece a exploração tanto por empresários quanto por governantes. Distingue o feminismo que busca igualdade de liberdades daquele que caracteriza como radical. Sobre o aborto, rejeita tanto a aceitação irrestrita quanto a proibição sem exceções. Ainda assim, essas qualificações convivem com afirmações amplas e severas sobre os movimentos criticados.

Integridade e propostas de tratamento

O último capítulo retoma a integridade na velhice: aceitar a própria história, com realizações, perdas e escolhas, sem exigir uma vida que nunca existiu. O autor relaciona essa aceitação à sua proposta de enfrentar a neurose esquerdista com recursos psicanalíticos, cognitivos, comportamentais e educativos. Também defende uma campanha pública sobre liberdade ordenada. Contudo, são propostas de Rossiter; o livro não apresenta uma investigação de seus resultados terapêuticos. A formulação de um tratamento e a demonstração de sua eficácia continuam sendo questões diferentes.

A mente esquerdista: citações e limites da tese

“A agenda esquerdista é a neurose esquerdista transformada em manifesto”

ROSSITER, 2016, p. 490.

De fato, essa frase revela o alcance da tese. O autor atribui a determinadas ideias políticas uma origem patológica. Nesse momento, a análise dos efeitos de um programa encontra uma afirmação sobre a vida interior de quem o defende.

Podemos acompanhar a preocupação com a responsabilidade e, ainda assim, perguntar: como se demonstra essa passagem? Afinal, uma proposta pode estar equivocada sem que seu defensor apresente um transtorno. Uma experiência de sofrimento pode influenciar uma convicção sem explicar tudo o que ela contém. Para reconstruir uma história psicológica a partir de uma posição política, é preciso mostrar os critérios e as evidências que permitem chegar a essa conclusão. Por isso, a força com que uma ideia é apresentada não resolve essa exigência.

O próprio Rossiter oferece uma ressalva importante. Ao explicar a longa confissão em primeira pessoa construída nos capítulos finais, reconhece que “sua totalidade não caracteriza nenhum em particular” (ROSSITER, 2016, p. 455). A confissão reúne formulações políticas e inferências sobre experiências anteriores. Assim, podemos lê-la como uma dramatização de sua hipótese. Nesse sentido, ela torna visíveis os conflitos que o autor imagina, mas não constitui o relato de um paciente identificado nem uma observação direta de todos os indivíduos descritos.

Como avaliar as evidências de A mente esquerdista?

Isso não significa que o livro dispense evidências. Por exemplo, ele mobiliza estatísticas históricas, fontes secundárias e observações sobre família e políticas sociais. No capítulo 12, defende o valor das descrições qualitativas e insiste que uma explicação precisa admitir verificação e correção. No entanto, a dificuldade está em mostrar como esse material comprova a relação geral entre trauma, personalidade e ideologia. Tendências sociais e exemplos selecionados não bastam, isoladamente, para demonstrar que uma orientação política causou todas as consequências que o autor lhe atribui.

Em A mente esquerdista, outra questão surge quando a discordância é interpretada como defesa psicológica. Em diferentes passagens, Rossiter antecipa que a pessoa rejeitará sua descrição porque não consegue reconhecer os próprios conflitos. Mas, se a aceitação confirma a hipótese e a rejeição também puder confirmá-la, como perceber que ela está errada? Essa pergunta acompanha o compromisso com a verificabilidade anunciado pelo próprio autor. Portanto, uma explicação precisa deixar espaço para encontrar algo que a obrigue a mudar.

Os riscos de confundir discordância e diagnóstico

A crítica também precisa preservar o que o livro admite. Rossiter reconhece que a psicopatologia pode influenciar programas conservadores e esquerdistas (ROSSITER, 2016, p. 51), considera a escravidão uma tragédia da história americana e identifica condutas exploratórias no setor privado. Contudo, seu exame mais extenso da patologia se concentra na esquerda. Ao reunir assistencialismo, progressismo, socialismo e comunismo em uma mesma oposição ao individualismo, ele reduz diferenças que seriam importantes para comparar instituições e resultados.

Podemos perceber, então, a contribuição e o limite da obra. De fato, as perguntas sobre poder, responsabilidade, incentivos e dependência merecem discussão. A dificuldade cresce quando concordar com o ideal político do autor passa a servir também como medida de maturidade psicológica. Nesse caso, o risco é que o adulto competente seja definido de maneira a confirmar, desde o início, a sociedade que Rossiter deseja defender.

Autores e ideias em diálogo com Rossiter

Erik Erikson é a principal companhia intelectual nesse percurso. Nesse sentido, sua teoria permite pensar a identidade como algo que se constrói nas relações e nos desafios de cada fase da vida. Childhood and Society e Identity, Youth, and Crisis estão entre as obras listadas no livro. Rossiter se apoia nesse caminho para elaborar uma interpretação política própria. Por isso, reconhecer a origem dos conceitos ajuda a compreender o argumento, mas não transforma automaticamente sua aplicação em conclusão do autor citado.

Heinz Kohut aparece na discussão do narcisismo e das necessidades de reconhecimento, com referência a The Analysis of the Self. Assim, sua presença ajuda a entender por que Rossiter se interessa pelas fragilidades que podem se esconder sob superioridade, grandiosidade ou controle. A ligação dessas ideias a uma orientação política específica, porém, pertence à construção de Rossiter e precisa ser avaliada como tal.

Liberdade, leis e tradições intelectuais

No campo jurídico, Randy Barnett e Richard Epstein sustentam a defesa de propriedade, contratos e regras que protegem a liberdade. H. L. A. Hart contribui para a reflexão sobre vulnerabilidade humana e necessidade de normas; Lon Fuller, para a relação entre obrigações, aspirações e funcionamento das leis. Desse modo, essas referências ajudam o autor a responder uma questão que atravessa o livro: como permitir que pessoas diferentes busquem uma boa vida sem ficarem à mercê da vontade umas das outras?

Em A mente esquerdista, a divergência com Rothbard mostra que Rossiter não adota todas as posições libertárias. Sua crítica ao marxismo e ao coletivismo se concentra na subordinação do indivíduo e na leitura da sociedade como conflito entre vítimas e opressores. Também contesta o relativismo e a desconstrução, embora não ofereça uma apresentação igualmente desenvolvida das escolas que critica. A tradição judaico-cristã aparece como fonte de cuidado, limites morais e responsabilidade comunitária. Portanto, esse papel religioso está presente no argumento, sem que o livro se torne um tratado de teologia.

O que A mente esquerdista deixa para o leitor

Rossiter escreveu para defender a liberdade responsável e combater o que considera uma sociedade que prolonga a dependência. Assim, sua intenção é ensinar e provocar. Ao aproximar desenvolvimento humano e instituições, lembra que uma pessoa livre precisa de vínculos, confiança, limites e condições para responder pelas próprias escolhas. Por isso, a convivência exige tanto capacidade de agir quanto disposição para reconhecer o outro.

A obra deixa uma questão que ultrapassa suas disputas políticas: que tipo de cuidado ajuda alguém a crescer? Há proteção que ampara a caminhada e há proteção que acaba por decidir todos os passos. Portanto, compreender essa diferença exige olhar para pessoas, circunstâncias e resultados. Nesse sentido, é uma das perguntas mais fecundas do livro, sobretudo para quem trabalha com educação e formação humana.

Seu ponto mais frágil está na passagem dessa reflexão para o diagnóstico dos adversários. A leitura integral mostra ressalvas que tornam o argumento mais complexo, mas também revela a insistência em explicar a esquerda por conflitos psicológicos. Ainda assim, podemos reconhecer os riscos de uma tutela excessiva sem abandonar a exigência de demonstrar como uma convicção política revela a história interior de alguém.

Em contextos acadêmicos e educativos, A mente esquerdista oferece material para pensar psicologia, ideologia e argumentação. Ao leitor de hoje, deixa perguntas exigentes: como fortalecer a autonomia sem ignorar a vulnerabilidade? Como cuidar sem dominar? E como examinar as convicções alheias com o mesmo rigor que estamos dispostos a aplicar às nossas? Por fim, a contribuição da leitura cresce quando essas perguntas permanecem abertas ao exame, inclusive quando nos levam a rever aquilo em que já acreditávamos.

Referências bibliográficas

Os dados das obras secundárias abaixo foram retirados da bibliografia do PDF de Rossiter. Sua presença nesta lista identifica os diálogos discutidos, sem indicar consulta independente a esses livros. A análise do conteúdo permaneceu baseada no arquivo fornecido.

BARNETT, Randy E. The structure of liberty: justice and the rule of law. Oxford: Oxford University Press, 1998.

EPSTEIN, Richard. Simple rules for a complex world. Cambridge, MA: Harvard University Press, 1995.

ERIKSON, Erik H. Childhood and society. 2. ed. Nova Iorque: W. W. Norton & Company, 1963.

ERIKSON, Erik H. Identity, youth, and crisis. Nova Iorque: W. W. Norton & Company, 1968.

FULLER, Lon L. The morality of law. New Haven: Yale University Press, 1969.

HART, H. L. A. The concept of law. Nova Iorque: Oxford University Press, 1994.

KOHUT, Heinz. The analysis of the self: a systematic approach to the treatment of narcissistic personality disorders. Nova Iorque: International Universities Press, 1971.

ROSSITER, Lyle H. A mente esquerdista: as causas psicológicas da loucura política. Tradução de Flavio Quintela. Campinas, SP: Vide Editorial, 2016.

ROTHBARD, Murray N. The ethics of liberty. Nova Iorque: New York University Press, 1998.

Para localizar a edição, consulte o registro bibliográfico no Google Livros. Para continuar a reflexão, explore outros textos no Professor Renato.

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